Na última quarta-feira, 7, estudantes ligados ao movimento negro ocuparam – ou akilombaram, como foi auto-denominado – a reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Promovida pelo coletivo Balanta – Nenhum Cotista a Menos, a ocupação reivindica a revisão do sistema de averiguação de possíveis fraudes em relação às cotas no vestibular.
Nesta sexta-feira, 9, o Sintrajufe/RS esteve na ocupação realizando a doação de alguns materiais e alimentos dos quais os estudantes estavam necessitando. Os colegas que tiverem interesse em também fazer doações, devem dirigir-se diretamente à ocupação, no campus central da Ufrgs. A lista de donativos que estão sendo pedidos está no final desta matéria.
A revisão da política de cotas
Em 2017, uma comissão para evitar possíveis fraudes de pessoas brancas autodeclaradas negras foi instituída pela universidade, após definição do Conselho Universitário. A comissão seria formada por edital público e contaria com especialistas no tema étnico-racial, alunos negros e representantes da comunidade negra de Porto Alegre. No início do ano, no entanto, a UFRGS lançou uma nova portaria, na qual estabelece uma comissão diferente para os recursos dos processos e permite que alunos de fenótipo branco com antepassados negros tenham seus pedidos deferidos.
O movimento negro estudantil entende que a portaria fragiliza o sistema de cotas, na medida em que pessoas de fenótipo branco não se enquadram no motivo pelo qual as cotas são necessárias. A Universidade já se posicionou abertamente sobre a ocupação, encerrando o diálogo com o movimento e mantendo a portaria.
A posição dos ocupantes
Glauber Cruz é um dos estudantes que ocupam a reitoria. Para ele, o akilombamento é uma ação de sobrevivência dentro da universidade. Uma vez que a universidade oficialmente se posiciona de uma maneira racista e, também oficialmente, se diz fechada ao diálogo, é o meio que temos para sermos ouvidos. As ações da universidade vão no caminho contrário do discurso de diversidade, de que todos são bem-vindos . O aluno de Jornalismo demonstra preocupação pelo futuro, já que seu irmão está se preparando para ingressar na universidade. É frustrante saber que a gente está regredindo tanto em tão pouco tempo. A sensação que eu tenho é de medo. Essa situação toda me deixa com raiva mas mais com tristeza, porque é uma instituição pública, que tem um peso muito grande na comunidade , diz.
Karen Santos, militante do Coletivo Alicerce e do movimento negro e parceira do Sintrajufe/RS em diversas atividades, também está atuando junto à ocupação: “ocupamos a reitoria por ela desconsiderar os critérios construídos junto ao movimento negro sobre a entrada na universidade pelas cotas raciais. Entendemos que expandir o conceito de pardo para pessoas que não tem fenotipia negra, através de casos como os exemplos dado pelo reitor na grande mídia, de o estudante possuir vínculo com cultura e religiosidade, assim como a criação de um novo conceito de pardo-indígena que inexisistia até então, são formas de continuar a permitir o ingresso de estudantes brancos que vêm se autodeclarando pretos ou pardos para acessar as cotas raciais”. Para ela, “desmerecer essa luta é mais uma forma de manter o privilégio branco e o racismo estrutural brasileiro”.
Os trabalhadores do Judiciário Federal no Rio Grande do Sul já decidiram, em suas instâncias de deliberação, o apoio ao sistema de cotas raciais e sociais no ensino superior e no serviço público.
Veja abaixo a lista de donativos pedidos pelos ocupantes:
*Mesa
Arroz
Massa
Açucar
Sal
Azeite
Extrato de tomate
Café
Filtro
água
Pão
Manteiga
Frutas
Saladas
Bolachas
Temperos (alho, cebola)
Bolachas
Chimia/mumu
Ispor/ coller
Colher de servir
Panela
Sucos
Prato plástico
1 pacote de copos
*Limpeza
Esponja
Detergente
Papel higiênico
Panos (limpeza, louça, mesa)
*Artesanais
Cola
Tesoura
Tinta
Pincel
Barbante
Faixa de tecido
Escada grande
Fita adesiva (qualquer tipo)









