SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

No Sintrajufe/RS, Maria Lucia Fattorelli palestra sobre dí­vida pública e o endividamento dos estados

Ontem, no Sintrajufe/RS, a auditora aposentada da Receita Federal e coordenadora da Auditoria Cidadã, Maria Lucia Fattorelli, proferiu palestra sobre Dí­vida pública e o endividamento dos estados . Estavam presentes, além de trabalhadores do Judiciário Federal, representantes da Assufrgs, da Ajuris, do Ceape-TCE-RS, do SindisPGE/RS, da Intersindical, da Fenastc e da Associação dos Servidores da Justiça do RS. Assistiram à palestra, ainda, trabalhadores da Fundação Getúlio Vargas e do Dieese.

Quando se fala em dí­vida pública, vêm à cabeça uma série de números, gráficos e cálculos complexos, e as pessoas acabam deixando o assunto para os especialistas . No entanto, quem paga a dí­vida é toda a população. Esclarecer sobre o assunto e, a partir do conhecimento, mudar a realidade, é um dos objetivos da Auditoria Cidadã da Dí­vida Pública.

Sangria

Todo ano, ouve-se que não há dinheiro, que o orçamento da União precisa ser readequado leia-se, corte em investimentos e funcionalismo. O que não é divulgado pela imprensa comercial é que cada corte significa mais dinheiro direcionado para o pagamento da divida pública.

O orçamento da União executado em 2013 mostra que 40,3% foram destinados para a dí­vida, ou seja, foram para o sistema financeiro, que detém os tí­tulos da dí­vida pública. A Previdência Social ficou com 24,11%; a transferência para estados e municí­pios, 10,43%; saúde, 4,29%; educação, 3,7%. Para 2014, a projeção é que a divida consuma 42% do orçamento, R$ 2,4 trilhões, ou 4 vezes mais que o previsto para todos os servidores federais (ativos e aposentados).

O governo, para angariar dinheiro para o pagamento da dí­vida, trabalha com altos juros no mercado interno e privatiza áreas estratégicas, como aeroportos, portos, rodovias, ferrovias, energia e, mais recentemente, o campo de Libra. A Previdência, segundo item em que a União aporta recursos (foram 24,11% em 2013), está na mira. Se for privatizada, sobrará ainda mais para o pagamento da dí­vida. Obviamente, o sistema financeiro já está trabalhando nisso. O Banco Mundial, informou Fattorelli, está fazendo assessoria para fundos de pensão. Esses fundos ainda servirão como escoadouro para os papéis podres que, não por acaso, originaram a crise na Europa. Portanto, alerta a palestrante, já se pode prever, se nada mudar, o que acontecerá com esses fundos daqui a 20, 30 anos.

Só para lembrar: foi o mesmo Banco Mundial, na década de 1990, que apresentou o documento técnico 319, no qual propunha a reestruturação do Judiciário na América Latina. No Brasil, isso significaria o fim da Justiça do Trabalho.

Sistema da dí­vida

Para Maria Lucia Fattorelli, o sistema da dí­vida é a usurpação do instrumento do endividamento público , a utilização do endividamento como mecanismo de subtração de recursos, e não para o financiamento de estados e municí­pios. O maior beneficiário é o sistema financeiro e sua principal caracterí­stica é a falta de contrapartida, ou seja, o dinheiro que causou o endividamento não foi utilizado em benefí­cio da população. Não se sabe de onde veio, quando foi tomado emprestado e de quem.

A Auditoria Cidadã pesquisou que mais de 80% da dí­vida foi contratada com bancos internacionais. A divida externa teve um crescimento extraordinário entre as décadas de 1970 e 80, na ditadura civil-militar, quando o Estado tomou para si dí­vidas de empresas privadas, por pressão do FMI. A dí­vida interna, explica Fattorelli, explodiu com o Plano Real, em 1994, quando houve um aumento na taxa de juros para atrair capital estrangeiro.

Federalismo

O sistema da dí­vida é um desrespeito ao federalismo, diz Fattorelli. Uma carta de intenções do FMI, de dezembro de 1991, proibia os estados de emitirem tí­tulos próprios, o que acabou gerando um engessamento. A União fica com a maior fatia da arrecadação de impostos e os repasses a municí­pios e estados são pí­fios. O resultado foi uma dí­vida crescente e dependência dos parcos repasses.

Em 1996, foi editada uma lei sobre o refinanciamento da dí­vida dos estados, em condições nada favoráveis. Daí­ surgiram programas de demissão voluntária de funcionários do quadro, privatização do patrimônio e, em muitos casos, em vários estados, os governos assumiram os passivos dos bancos. O Rio Grande do Sul foi uma exceção, ressaltou a palestrante, pois a mobilização da sociedade evitou a privatização do Banrisul.

Para Fattorelli há várias ilegalidades e ilegitimidades no endividamento dos estados. Por exemplo: são cobrados juros sobre juros, o que é ilegal, de acordo com a súmula 121 do STF, e não há auditoria das dí­vidas, que crescem assombrosamente. De 2008 a 2012, a dí­vida lí­quida externa dos estados mais que dobrou.

Para pagar as dividas com a União, os estados estão recorrendo a empréstimos a bancos privados internacionais. Para Fattorelli, em primeiro lugar, não poderia ser cobrado qualquer juro, porque são todos entes da Federação. Se tiver que haver a cobrança, a proposta da Auditoria Cidadã da Dí­vida é que sejam cobrados, no máximo, os 4% que o BNDES costuma cobrar de empresas privadas.

Participação

A Auditoria Cidadã da Dí­vida tem núcleos em vários estados. O Núcleo RS, coordenado pelo diretor do Sintrajufe/RS Cristiano Moreira, foi o responsável pela vinda de Fattorelli ao estado. Ela realizou palestra também em Rio Grande e concedeu entrevistas.
 
Os dados pesquisados e analisados pela Auditoria Cidadã da Dí­vida Pública são divulgados na internet, em livros, jornais e palestras. A ideia é propagar conhecimento para que este se converta em ação.

Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS