SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Na Semana da Consciência Negra, Sintrajufe/RS promove debate sobre quilombos urbanos e a luta pela titulação

Nessa quinta-feira, 23, a atividade do Sintrajufe/RS na Semana da Consciência Negra saiu da sede e foi até a Comunidade 7 de SetembroQuilombo dos Machado, na zona norte de Porto Alegre. Na Associação de Moradores, foi promovido o debate Luta e resistência: o cotidiano dos quilombos urbanos de Porto Alegre , com a participação do advogado e militante da Frente Quilombola do RS Onir Araujo e o coordenador do Quilombo dos Machado, Luí­s Rogério Machado, o Jamaica, como é conhecido.

A capoeira é uma das atividades oferecidas às crianças do Quilombo. Para participar, elas precisam estar frequentando a escola. Antes do debate, Jamaica convidou os presentes a fazerem alguns dos movimentos básicos da capoeira, como um aquecimento, uma atividade lúdica, e também para mostrar um pouco da cultura ancestral do povo negro que é passada de geração para geração. Jogar capoeira é o que a gente faz no dia a dia: jogar contra o sistema , explicou.

Na abertura do debate, os diretores do Sintrajufe/RS Cristiano Moreira e Leandro Costa fizeram uma saudação aos presentes, especialmente aos integrantes da comunidade. Explicaram que a atividade era muito importante, a primeira do sindicato realizada em um quilombo urbano e que esperavam que os laços se fortalecem ainda mais, na luta cotidiana de resistência.

Onir Araujo falou sobre a luta dos 6 mil territórios quilombolas em todo o paí­s em busca de reconhecimento e titulação. No caso do Quilombo dos Machado, explicou, o espaço foi retomado em 2012, quando, no dia 7 de setembro, famí­lias ocuparam a área. Parte delas se autoidentificou como quilombolas, daí­ o nome Quilombo dos Machado. A Ocupação já teve despejo decretado pela Justiça mais de uma vez, mas segue resistindo. Foi conseguida transferência da ação, da Justiça Comum para a Federal, na qual foi determinado prazo de três anos (até 2020) para que sejam produzidas provas que comprovem que a área é remanescente de quilombos. Já há profissionais das áreas de história, geografia e antropologia fazendo pesquisas e levantamentos.

No Brasil, explicou Onir, a história da modernização dos espaços urbanos, principalmente nas grandes capitais, se deu com a constante perseguição e expulsão da população negra. Onir lembrou que grandes vias em Porto Alegre e bairros como Mont Serrat e Menino Deus foram erguidos em detrimento dessa população: era uma polí­tica racista, de limpeza étnica, jogando essa população em bolsões nas periferias .

O reconhecimento e as titulações de áreas remanescentes de quilombos ainda são poucas, e mesmo esses pequenos avanços não estão seguros. Atualmente, no Congresso Nacional, há pelo menos 25 projetos, da bancada ruralista, que ameaçam áreas indí­genas e quilombolas.

Onir chama a atenção para o fato de a maioria das áreas indí­genas e quilombolas estarem localizadas de mata em pé, nascedouros de água, de grande biodiversidade. É o que está em jogo , alerta. O advogado afirma que quem está resistindo nessas comunidades, que o sistema chama de atrasados , na verdades está defendendo recursos naturais que estão na mira das grandes corporações. Nos espaços urbanos, essas áreas estão em locais de interesse de construtoras, que veem as cidades como apenas fonte de lucro. E as populações das comunidades defendem que o lucro não esteja acima da dignidade, da solidariedade, do direito a moradia, saúde e educação, denunciam o sucateamento dos aparelhos urbanos, questionam a cada dia que projeto de cidade e de nação estamos defendendo .

Ancestralidade, dignidade e luta

O dia a dia no Quilombo dos Machado é duro. As quase 300 famí­lias lidam com precariedade ou falta de trabalho, ameaça constante de despejo pelo pode público. A Polí­cia Militar, em uma das investidas no local, sob o pretexto de busca por drogas, quebrou lâmpadas e parte da Associação de Moradores. Jamaica explicou que os direitos mais básicos são ignorados e que o embate com o poder público é constante.

Jamaica conta que a dificuldade se dá em coisas básicas como preencher uma ficha de emprego, pois a prefeitura não reconhece a área, as ruas não têm CEP. É como se a gente não existisse. O desânimo às vezes surge, revela ele; no entanto, a luta segue. Cada um tem que fazer sua parte, se olhar enquanto povo e trabalhar com unidade.

Depois do debate, todos participaram de uma dança coletiva, Maculelê, que tem origem em uma luta de guerra dos negros. Em roda, com a batida do tambor. A cantiga foi gravada na década de 1930, de autoria de Mestre Bobó de Santo Amaro, é mais uma expressão da cultura negra. A atividade se encerrou com a palavra de ordem Acabou o amor, isso aqui vai virar Palmares! .

A colega da Justiça Federal de Canoas Roberta Liana Vieira participou da atividade e convidou amigos. Servidora desde maio, ela disse que chamou a atenção o fato de ser uma das poucas servidoras negras. Roberta considerou a atividade uma experiência fantástica, bem da gente , mostrando que é possí­vel se manifestar polí­tica e criticamente sem deixar de expressar a força da cultura. Ela disse que quando se sindicalizou não esperava que o Sintrajufe/RS fosse tão envolvido em questões sociais: isso me deixou muito feliz, o sindicato é de vanguarda .

As atividades continuam; confira a agenda:

24 de novembroUbuntu! Cultura e Resistência

Sarau de Poesia com o Sopapo Poético e show com a Banda Afroentes

Local: Sintrajufe

Horário: 20h

27 de novembroVidas Negras Importam: O Sistema Penal e o caso Rafael Braga

Debate com o defensor público Andrey Melo e Karen Santos, do Comitê pela Liberdade de Rafael Braga

Local: Sintrajufe

Horário: 19h

Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS