A abertura do Seminário de Organização Sindical promovido pelo Sintrajufe/RS no último sábado, 18, foi momento de um importante debate sobre a conjuntura brasileira. Com a mediação dos diretores do Sintrajufe/RS Alessandra Krause e Cristiano Moreira, dois painelistas apresentaram visões distintas sobre a realidade do país, embora ambos tenham demonstrado igual preocupação com o momento político e social de crescentes ataques a direitos e à democracia. Os debatedores foram o cientista político Benedito Tadeu César e o economista Plínio de Arruda Sampaio Jr.
Benedito foi o primeiro a falar. Ele lembrou que todos os que historicamente defenderam avanços democráticos, na luta por mais direitos, agora se vêem na obrigação de defender a democracia mínima, também ameaçada. Ao mesmo tempo, destacou, os direitos dos trabalhadores brasileiros são retirados para o pagamento de juros da dívida públicamesma razão pela qual foi aprovado o congelamento dos investimentos públicos para os próximos vinte anos, alimentando o capital financeiro. “Vivemos, no Brasil, uma situação de deterioração institucional, política, econômica, moral…”, lamentou o cientista político, denunciando o “golpe e seus desdobramentos, que mostram que não só o sistema político e econômico está em crise, mas o conjunto de instituições brasileiras também”.
Citando a prisão do ex-presidente Lula e a determinação da Organização das Nações Unidas de que o Brasil garanta o direito de Lula exercer seus direitos políticos, Benedito avaliou que o país passa por um momento muito grave e que é difícil analisar o que possa ocorrer a partir das eleições de outubro, que, para ele, se encaminham para uma disputa entre Geraldo Alckmin, do PSDB, e a candidatura do Partido dos Trabalhadores. Porém, conforme o painelista, “podemos ter uma situação que é a mais calamitosa possível, que é uma vitória do Bolsonaro”, já que, para a burguesia, retirar Bolsonaro da Presidência caso ele não faça o jogo dos poderosos seria mais fácil do que fazer o mesmo com um presidente do PT ou do PSDB. Nesse contexto afirmou que, pior do que sentados em um barril de pólvora, “estamos dentro de um barril de pólvora, e o pavio pode ser aceso logo”.
Plínio de Arruda Sampaio Jr., por sua vez, avaliou que a crise não é apenas do Brasil, mas do capitalismo, “e o capitalismo não tem condições de resolver essa crise sem agravá-la, mas não vai morrer de morte morrida, precisa morrer de morte matada”. Conforme o economista, em cada país essa crise assume diferentes faces e, na periferia do capitalismo, “a crise assume a forma de reversão neocolonial, uma desorganização de todos os processos civilizatórios que foram conquistados”, algo muito maior do que a polarização PT-PSDB. Para Plínio, ainda, Lula não mexeu de fato no subdesenvolvimento do Brasil, a crise começou antes de Temer, e tentar “civilizar o capitalismo” não vai resolver o problema. Conforme o painelista, a Nova República, uma “democracia de baixa intensidade”, está morrendo, e “o velho resiste e é forte, mas é incapaz de dar uma solução para qualquer problema do Brasil”.
Plínio defendeu que o velho fatalmente irá morrer, e que a grande questão que se impõe é “o que pôr no lugar”. Para ele, nesse ponto, a direita está na frente. “A intervenção militar está posta. Tem manifestação, chama o Exército, tem violência, chama o Exército a história do Brasil é repleta de intervenção militar. Essa é a saída deles, a crise da política, a negação da política”, criticou, defendendo que a verdadeira solução é “radicalizar a democracia, fazer uma revolução democrática”. Para isso, o caminho não é fácil: “Não falta luta, mas falta programa. O programa é 'não se faz omelete sem quebrar ovos'. E isso se chama revolução”, defendeu.
Após as falas dos painelistas, diversos colegas presentes se revezaram ao microfone. A maioria deles apontou que a saída não passa por retomar conciliação de classes, mas sim por enfrentar interesses dos poderosos para defender a pauta dos trabalhadores. Também disseram que os ataques a direitos, embora tenham se intensificado no governo Temer, já ocorrem desde antes dos governos petistas, ao passo que criticaram as alianças feitas por Lula e Dilma. Reforçaram também, de modo geral, a preocupação com o contexto do país, e apontaram a luta dos trabalhadores, da juventude e de todos os setores oprimidos como única saída real para a crise.










