SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

IX Congresso Estadual do Sintrajufe/RS começa com aprovação do Regimento Interno e debate sobre perspectivas de luta ante o governo Bolsonaro

Neste sábado, 24, teve iní­cio o IX Congresso Estadual do Sintrajufe/RS, no Hotel Embaixador, em Porto Alegre. Pela manhã, foi aprovado o Regimento Interno do evento e, em painel sobre conjuntura, foi debatida a ascensão da extrema-direita no Brasil e a resistência da classe trabalhadora frente a isso.

O diretor do Sintrajufe/RS Cristiano Moreira saudou os presentes em nome da direção. Ressaltou a importância da realização do Congresso Estadual, em um contexto de ameaças a uma série de direitos e restrições democráticas profundas . O dirigente destacou que a categoria vem de um perí­odo de luta e mobilização, sempre presente em atividades unificadas contra retrocessos, inclusive conseguindo barrar a reforma da Previdência. Esperamos que este Congresso possa deliberar um Plano de Lutas que unifique e prepare a categoria para as dificuldades que nos aguardam , concluiu.

Representantes de entidades fizeram saudação aos participantes, todos destacando a importância da unidade para defender direitos e evitar retrocessos. O coordenador da Fenajufe Adilson Rodrigues parabenizou a categoria pelos 20 anos do Sintrajufe/RS, que serão comemorados em 28 de novembro. Disse que, frente à conjuntura atual, o desafio é como nos organizamos mais e melhor para defender os interesses da categoria por direitos, salário, condições de trabalho e da barbárie que se avizinha saí­da dos resultados das urnas e saudou os que ousam lutar, os que ousam sonhar . O colega do Ministério Público do Trabalho de Uruguaiana Jean Loiola afirmou que a unificação dos servidores do Judiciário Federal e do MPU transcende a mera organização sindical, pois estamos juntos nas mesmas propostas, inclusive que extrapolem questões corporativas; construamos esta luta, estejamos juntos fazendo o enfrentamento necessário também na organização das lutas do nosso povo . Também estavam presentes representantes do Sindicato dos Trabalhadores do Ministério Público do Estado do RS (Simpe), do Sindicato dos Trabalhadores Federais da Saúde, trabalho e Previdência (Sindisprev-RS) e do Sindicato dos Técnico-Administrativos da Ufrgs (Assufrgs).

Painel de conjuntura trata da ascensão da extrema-direita ao poder e perspectivas de luta

Depois das saudações iniciais, foi feita a leitura, discussão e aprovação do Regimento Interno, que estabelece as regras para o desenvolvimento das atividades nestes dois dias de Congresso. Logo depois, teve iní­cio o primeiro debate do evento, o painel O Brasil de Bolsonaro: balanço da ascensão da extrema-direita ao poder as perspectivas de luta e resistência da classe trabalhadora , com a juí­za do Trabalho Valdete Souto Severo; filósofo e professor de Gestão de Polí­ticas Públicas da USP Pablo Ortellado; e a vereadora de Porto Alegre e deputada federal eleita Fernanda Melchionna (Psol).

Neste momento, é de fundamental importância a reafirmação do que é o serviço público, principalmente no acolhimento de pessoas que estão à margem do sistema, afirmou Severo. A magistrada fez um breve resumo sobre o processo de ataques aos servidores, que, afirmou, teve iní­cio ainda na ditadura, com a terceirização, e se agravou na onda liberal dos anos 1990. A demonização acaba contando com a reverberação do discurso por parte dos próprios servidores, como se tivessem privilégios, e não direitos , e decisões do próprio STF. Ela destacou o papel da mí­dia, que desconsidera o trabalho e a importância do serviço público de qualidade, e do Judiciário, como agente da destruição de garantias e direitos. Sobre a eleição de Bolsonaro, ela afirmou que, de alguma maneira, permitimos que se chegasse até aqui, à eleição de um candidato que defende a tortura e a exclusão social. Temos que reconhecer nossas falhas como cidadãos e cidadãs, a naturalização da barbárie que está se cometendo há muito tempo, assédio, preconceito , afirmou. Apesar do momento adverso, Valdete acredita que há um grande potencial de resistência; construí­mos, nas últimas décadas, movimentos muito fortes, feministas, LGBTs, antirracistas, sindicais e a partir daí­ reagiremos. Isso, no entanto, sem subestimar a capacidade de tirar direitos e impor uma lógica autoritária do próximo governo. Para Valdete, os discursos de ódio refletem uma cultura, o que ela chama de DNA racista, machista e homofóbico em nossa cultura , contra o qual lutamos diariamente. Ela aponta que o papel de cada é fundamental para o tempo de escuridão que se avizinha, sem deixar que o medo nos paralise. E finalizou dizendo que a atuação do Sintrajufe/RS é fundamental, que é necessário acreditar mais do que nunca na força coletiva, seguir lutando, desenvolvendo massa crí­tica: temos condições de enfrentamento e de avanço para recuperar o pouco da democracia que tí­nhamos e que perdemos neste ano de 2018 .

Por estar doente, Pablo Ortellado não pôde comparecer ao Congresso, mas enviou sua participação por ví­deo, que foi exibido ao plenário. Segundo ele, as eleições de 2018 foram muito bem armadas para não haver inovação ou reforma eleitoral e que os recursos tradicionais (tempo de rádio e TV, recursos de campanha e palanque) fossem concentrados em quem já detinha o poder. Para Ortellado, a ascensão da extrema-direita contrariou as expectativas, utilizando-se novas formas de campanha, por meio das redes sociais e das fake news. O grupo de pesquisa do qual o painelista faz parte analisou as publicações por Facebook e WhatsApp e apontou que a maior parte delas dizem respeito a discurso antipartidário e anticorrupção e defesa da famí­lia tradicional, disseminando que os partidos grandes (PT, PSDB, MDB) são todos iguais, todos comunistas e que o feminismo, os movimentos LGBT e artí­sticos se colocam contra a organização familiar, corrompendo jovens e crianças. Esses dois fenômenos foram unificados na campanha de Bolsonaro, que se colocou como um representante do povo na luta contra as elites, um homem comum. Por outro lado, afirmou o painelista, foi feita uma campanha paralela, por Paulo Guedes junto a grandes investidores e grandes empresários, extremamente liberal, não era para o público, mas para as elites econômicas, incluindo aí­ medidas antipopulares como a reforma da Previdência.

O governo Bolsonaro será de ataques aos servidores, disse Fernanda Melchionna, destacando o fim da estabilidade, o rebaixamento de salários e a continuidade e aprofundamento da agenda já em curso, com terceirização e rebaixamento de salários. Ela destacou que as eleições também refletem a insatisfação de setores com as conquistas e liberdades democráticas e acredita que movimentos de empoderamento, como o #EleNão, de LGBTs e antirracistas são fundamentais para a resistência. Quanto ao futuro governo, está se montando um ministério que pode significar a mudança do regime politico brasileiro, combinada a ataques a classe e perseguição a movimentos . Para ela, estamos errando se dissermos que 57 milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro são fascistas . Há um movimento mundial, com a extrema-direita tentando se colocar como alternativa em um sistema que ruiu, e a crise afunilou a ideia de que o modelo polí­tico serve para representar a casta do sistema. A falta de uma justiça de transição pós-ditadura, a falta de punição por assassinatos e torturas fez com que os militares seguissem na caserna conspirando, e vários estão de volta ao poder. Para Melchionna, a falta de credibilidade no sistema polí­tico criou um vácuo, e há uma crise de alternativa de esquerda de massas para ocupar esse vácuo. Diante do sistema falido, Bolsonaro apareceu como alternativa, e sabemos que simboliza o sistema com mais repressão e violência . De acordo com Melchionna, a resistência vai exigir muita habilidade; o neofascismo é um processo e por isso temos que saber que não vamos dar nenhum passo atrás, proteger e apoiar, nenhum espaço a menos . Segundo ela, vale mais a pena disputar o colega do que falar eu avisei , e isso exigirá debate. Solidariedade e diálogo serão fundamentais, e Melchionna levantou como sugestão a constituição de uma frente única dos trabalhadores, com os pontos que todos têm comum, defesa da Constituição e de direitos.

Depois das falas dos painelistas, foi aberto espaço para manifestação de dez colegas. Nas manifestações, foram levantadas preocupações com perseguição e ataques que são esperados no próximo governo. Todos concordaram que é preciso estar aberto ao diálogo, trazer para a luta todos os servidores; vários propuseram conversas com colegas que votaram em Bolsonaro, que também sofrerão as consequências da agenda de arrocho salarial, reformas, ataques e privatizações.

Teses e resoluções são apresentadas

As atividades da tarde do IX Congresso Estadual começaram com a apresentação das 13 teses enviadas ao evento e divulgadas em caderno de teses. Os textos tratavam de conjuntura/Plano de Lutas; emenda constitucional 95/2016/Luta por valorização; organização sindical; saúde; polí­ticas permanentes; e aposentados.

Foi aprovada, com apenas duas abstenções, a tese Em defesa da democracia e dos direitos , que defende a luta e a resistência unificadas em defesa de direitos trabalhistas e sociais, dos serviços públicos e das liberdades constitucionais e contra o autoritarismo e se colocando em oposição, desde já. O texto foi construí­do conjuntamente pela Direção Colegiada do Sintrajufe/RS, o Coletivo Luta Sintrajufe, Oposições Unificadas e Juventude Sintrajufe.