SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Inimigo na trincheira: presidente do TST pede que Câmara do Deputados retire de pauta projetos que criam varas, cargos e funções

Em uma colaboração ativa e sem precedentes para o sucateamento da Justiça do Trabalho brasileira, o presidente do TST e do Conselho Superior da JT (CSJT), Ives Gandra Martins Filho, solicitou ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na terça-feira, 4, a retirada da pauta de projetos de criação de varas do trabalho, cargos e funções e a contratação de servidores. Serão retirados da Câmara 32 projetos que preveem, no total, a criação de, aproximadamente, cem varas do trabalho, 200 vagas para juí­zes e 8.000 vagas para servidores. Projetos sobre os mesmos temas que tramitam no Senado não serão retirados, pois possuem previsão orçamentária para 2017.

Rodrigo Maia, um dos grandes apoiadores das polí­ticas de desmonte do Estado, elogiou a atitude de Ives Gandra e assinalou que é um gesto importante e que deve ser seguido por todos , pois não seria momento de criar despesas.

Agindo como um inimigo na trincheira, Ives Gandra não usou sua influência como presidente de tribunal superior para pressionar pela aprovação dos projetos a fim de qualificar ainda mais o atendimento à população, a expansão da JT e as condições de trabalho de servidores e magistrados. Ao contrário, usou-a para jogar uma pá de cal no longo trabalho de sindicatos e administrações de tribunais regionais junto ao TST e ao CNJ que resultou nesses 32 projetos. Eles não tinham possibilidade avanço na tramitação em um futuro próximo, mas se mantinham na pauta e voltariam à ordem do dia, com a pressão da categoria, quando o ambiente fosse mais propí­cio. Agora, tudo voltou à estaca zero. No Rio Grande do Sul, o Sintrajufe/RS trabalhou pela aprovação do PL 956/15, que, embora com limitações, ajudaria resolução da alta demanda processual em varas do Trabalho. Agora, todo o esforço foi reduzido a pó por quem mais deveria defender os interesses da JT.

Escambo às custas dos servidores e dos trabalhadores

O presidente do TST vê a expansão da Justiça do Trabalho como uma despesa, e não como um investimento na melhoria do atendimento à população. Por isso, ressaltou que a medida representa uma economia de R$ 1 bilhão. Em troca da extinção dos projetos, Ives Gandra afirmou: Esperamos com isso a compreensão do Congresso e do governo de que não desejamos a expansão da Justiça do Trabalho, mas esperamos continuar com as portas abertas. Só com esta exceção poderemos funcionar com normalidade .

Segundo o presidente do TST, a retirada das propostas na Câmara é uma estratégia para que a Justiça do Trabalho possa ter reconhecido um pedido de exceção no ajuste fiscal do governo Temer, que permita o acesso à remuneração dos depósitos judiciais sem o limite previsto no teto para gastos públicos (PEC 241/16). Novamente, o ministro se exime de suas responsabilidades: em vez de se colocar frontalmente contra o ajuste fiscal e o congelamento de salários e de investimentos, propõe ao governo um escambo, usando como mercadoria de troca a própria Justiça do Trabalho.

Posições de Ives Gandra são criticadas há mais tempo

A crise econômica e os cortes que quase levaram ao fechamento de tribunais serviram e ainda servem como desculpa para várias medidas que, ao final, afetam principalmente usuários e servidores. No RS, a categoria vive uma situação de remanejamento de funções, redução dos servidores em gabinetes e, por outro lado, aumento das horas de atendimento de balcão. O Sintrajufe/RS fez uma grande mobilização contra o remanejamento, posição da categoria aprovada em assembleias de base em todo o estado. A forma como se deu a criação do cargo de 2º assistente de juiz mostra que faltam cargos para suprir a demanda existente. O PL 956/15 visava, ainda que de forma insuficiente, corrigir também esse problema. Com a retirada dos projetos, ficará ainda mais difí­cil solucioná-los.

O posicionamento de Ives Gandra está inserido em um contexto de ataques a direitos e retorno das tentativas de extinção da Justiça do Trabalho. Em janeiro, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) divulgou nota pública criticando afirmações do então recém-empossado presidente do TST na qual ele afirmava que a JT é paternalista e dá de mão beijada indenizações a trabalhadores em suas justas reclamações contra seus patrões. Fragilizar as regras jurí­dicas gerais de proteção ao trabalho é negar a tutela legal deferida aos seus destinatários , afirmou a Anamatra.

O mesmo Ives Gandra, no final de 2015, também foi à imprensa se pronunciar contra direitos trabalhistas. Afirmou que era favorável à flexibilização da legislação (leia-se: fim da CLT) e à ampliação da terceirização. À época, o ministro disse que havia uma reação do empresariado, ou de parte da sociedade, ao ultraprotecionismo que hoje o TST dá aos trabalhadores .

A categoria terá de responder à altura, pois de um presidente do TST que se manifesta contra direitos dos trabalhadores não se pode esperar que defenda a Justiça do Trabalho.