SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Governo Bolsonaro admite que está espionando grupos da sociedade civil para conter oposição

Em reportagem desse domingo, 10, o jornal O Estado de São Paulo mostrou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e os comandos militares estão espionando a Igreja Católica, vista como uma liderança na oposição ao governo de Jair Bolsonaro (PLS). De acordo com a reportagem, o governo avalia que a Igreja é uma tradicional aliada do PT e estaria se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do paí­s e nas periferias.

Lí­deres da Igreja estão sendo monitorados, o que está registrado em informes da Abin e dos comandos militares. Há relatos inclusive de reuniões de cardeais com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sí­nodo sobre Amazônia, que acontecerá em Roma, em outubro. Sí­nodo é um encontro global de bispos no Vaticano para discutir a realidade de í­ndios, ribeirinhos e demais povos da Amazônia, polí­ticas de desenvolvimento dos governos da região, mudanças climáticas e conflitos de terra. Serão 23 dias de debates de assuntos que o governo considera agenda da esquerda .

Escritórios da Abin em cidades da região Norte em que há conflitos de terras estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sí­nodo em paróquias e dioceses. Ou seja, todos os movimentos dos lí­deres católicos estão sendo investigados. O governo alega ter preocupação de que o Sí­nodo amplie, internacionalmente, crí­ticas ao governo Bolsonaro a partir do chamado clero progressista . Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí­ , disse o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, para quem discutir esses assuntos seria uma interferência em assunto interno do Brasil . Durante a campanha eleitoral, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criticou propostas do então candidato Bolsonaro de criminalização dos movimentos sindicais e sociais e quanto a questões como meio ambiente e demarcação de terras indí­genas.

Depois da publicação da reportagem, o GSI divulgou nota na qual afirma que a Igreja não é objeto de qualquer tipo de ação por parte da Abin e que existe preocupação com alguns pontos da pauta do Sí­nodo. Apesar de afirmar que não há qualquer tipo de ação, o governo brasileiro tentará convencer o governo italiano a interceder junto à Igreja a fim de que o Sí­nodo não faça ataques à polí­tica ambiental, conforme notí­cia de O Estado de São Paulo. Membros da CNBB já manifestaram que são contra a presença de representantes do governo no evento.

A amplitude da vigilância sobre os movimentos de lideranças católicas acende o sinal amarelo para todos os movimentos sociais e de trabalhadores organizados no Brasil que fazem oposição ao governo. No paí­s e no exterior, o governo elegeu os inimigos , tal como durante a ditadura. Em um perí­odo em que os trabalhadores se organizam pela manutenção de direitos previdenciários e contra um recrudescimento ainda maior da perda de direitos trabalhistas, o governo pode se outorgar o direito de espionar assembleias, atos públicos e monitorar lideranças. É algo que não pode ter lugar em uma democracia; é uma caracterí­stica de Estados de exceção que precisa ser denunciada.