SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Com salão lotado, Sintrajufe/RS e Sopapo Poético homenageiam o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

Música, batuque, poesia e ancestralidade marcaram a noite dessa quarta-feira, 25, no Sintrajufe/RS. O Salão Multicultural Alê Junqueira ficou lotado na atividade cultural promovida em parceria do Sintrajufe/RS com o Sopapo Poético para homenagear o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A atividade contou com declamação de textos e poesias de autoras negras, apresentação de dança e seguiu com o Tributo a Dona Ivone Lara , show com Negras em Canto e Puro Samba.

Colegas da categoria e muitas pessoas da comunidade estavam presentes. Na falta de cadeiras, sentaram-se no chão, à frente do palco, acompanhando as apresentações. A primeira parte do evento foi uma versão abreviada dos saraus do Sopapo Póetico, no qual as pessoas declamam ou leem textos de autoras e autores negros. Como a data era de homenagem às mulheres negras, foram elas que subiram ao palco. Poesias, textos pungentes tratando de racismo, identidade, de ser mulher negra no Brasil. Emoção, humor, pungência, várias foram as sensações para quem assistiu.

Depois, o palco foi ocupado pelas Negras em Canto, que, acompanhadas pela banda Puro Samba, levaram ao público os grandes sucessos de Dona Ivone Lara. Esta, uma pioneira, abriu espaço para as mulheres no samba, tornando-se uma compositora e cantora reconhecida, e a primeira mulher a ter um samba-enredo cantado na avenida.

Visibilidade, protagonismo

Em sua saudação, o diretor do Sintrajufe/RS Leandro Costa falou que a população negra, que representa 54% da população brasileira, é a que mais sofre com a pobreza. E a questão, ressaltou, é ainda mais alarmante quando se trata das mulheres negras , que são barradas em seu desenvolvimento e oportunidades. O diretor lembrou Marielle Franco, mulher negra, militante, assassinada em maio, e afirmou que queremos nesta noite expressar, pela música, a luta e a resistência das mulheres negras .

A colega Gládis Marques, da Justiça do Trabalho de Porto Alegre passou nos locais de trabalho, nos dias que antecederam a atividade, convidando os demais servidores a participar. Eu queria que o evento fosse marcante, que o 25 de Julho passasse a ser valorizado. Falando do ponto de vista de uma mulher negra, Gládis disse que a luta é longa, que há um longo caminho a trilhar, de enfrentamento do machismo e do racismo, mas que, ao pensar no mundo daqui a décadas, ela o pensa com menos discriminação, mais acolhimento e respeito à ancestralidade. Sobre os negros no Judiciário, Gládis é bastante crí­tica: o negro está escondido, não está em cargos de chefia, não tem lugar em cursos de gestão , por isso, pensa que é preciso haver mais cobrança para ocupação desses espaços. Para ela, atividades como as dessa quarta-feira dão mais visibilidade à criação, à cultura negra.

Visibilidade também foi uma palavra usada pela compositora, poeta e ativista cultural Delma Gonçalves, que, como mestre de cerimônias, conduziu as atividades. Ela, que já particiou de outros eventos culturais em parceria com o Sintrajufe/RS, destacou que o 25 de Julho representa a celebração da luta das mulheres negras, de suas conquistas ainda tão pouco mostradas e valorizadas. Para Delma, o Sintrajufe/RS se destaca como uma entidade que estimula a conexão de forças, de lutas, dando mais visibilidade às artistas e aos artistas negros.

O Sopapo Poético foi criado em 2012, dentro da Associação Negra de Cultura, entidade com 30 anos, para ser um espaço de divulgação da produção de autores negros. O colega da Justiça do Trabalho de Porto Alegre Vladimir Rodrigues, é músico e um dos criadores do Sopapo ; ele participou da produção da atividade dessa quarta-feira, no sindicato. Vladimir se disse muito satisfeito com o resultado, com o grande número de pessoas presentes, para uma data significativa, que ressalta o protagonismo das mulheres negras. Sobre a presença de negros e negras no serviço público, ele ressaltou que, além de ser pequena, é pouco discutida. Ele integra o Coletivo de Servidores Negros do TRT4 e disse que a presença de colegas brancos nas atividades promovidas é muito pequena: há tabus sobre a questão racial . Por isso, o colega entende que é fundamental falar sobre o assunto, mostrar a produção cultural de resistência de mulheres, negros, indí­genas, e o Sintrajufe/RS, no entendimento dele, é importante, já se tornou uma referência, um espaço cultural da cidade.

Maria Cristina Ferreira dos Santos, diretora do Sopapo, disse que a procura cresceu muito nos últimos anos, pois faltam espaços de protagonismo para negras e negros, e isso é garantido nos saraus. Para ela, é importante todos estarem juntos nessa luta, e as ações dos sindicatos são fundamentais. Maria Cristina afirma que a luta pelos direitos das categorias de trabalhadores precisa estar atrelada à mudança da base sociedade, e a luta antirracismo está na raiz disso. Luciana Gomes, que também intregra o Sopapo, afirmou que as atividades são, ainda, uma busca pela ancestralidade. Ela declama nos saraus e contou que está criando coragem para começar a escrever. Ambas entendem como muito positiva a parceira com o Sintrajufe/RS, mais uma maneira de dar visibilidade a essa criação.

Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS