SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

As mulheres trabalham mais do que os homens, aponta IBGE

A mulher trabalha cada vez mais que o homem. Não se trata de opinião ou sentimento, é dado estatisticamente comprovado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatí­stica (IBGE). Em uma década, a diferença aumentou em mais de uma hora. Em 2004, as mulheres trabalhavam quatro horas a mais que os homens por semana, quando somada a ocupação remunerada com o que é feito dentro de casa. Em 2014, a dupla jornada feminina passou a ter cinco horas a mais, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicí­lios (Pnad), que reúne informações de mais de 150 mil lares. 

Nestes 10 anos, os homens viram sua jornada fora de casa cair de 44 horas semanais para 41 horas e 36 minutos, em um resultado influenciado tanto pela formalização do mercado de trabalho quanto pelo aumento do número de homens inativos nos últimos anos, explica André Simões, do IBGE. A estagnação econômica de 2014 também ajuda a explicar a situação, com o aumento do desemprego. 

O tempo extra não se converteu em maior dedicação a afazeres domésticos: a jornada deles dentro de casa permaneceu a mesma de uma década atrás: 10 horas semanais. É um tempo imutável , classifica a economista da Universidade Federal Fluminense (UFF) Hildete Pereira de Melo, estudiosa das questões de gênero. No mesmo perí­odo, as mulheres mantiveram seu ritmo de trabalho fora de casa em 35 horas e meia. Dentro de casa, porém, a jornada delas chega a 21 horas e 12 minutos por semana, mais que o dobro da dos homens. 

Regina Madalozzo, especialista em economia de gênero do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), diz que, mesmo quando a mulher trabalha fora, o ritmo é acelerado em casa. A mulher ainda não se libertou do trabalho doméstico, que é uma responsabilidade de todos. Apesar de a sociedade estar discutindo a questão, a mudança no comportamento masculino ainda não surgiu nos números. A mulher trabalha mais que o dobro dos homens. Não houve resposta a essas discussões que estão sendo travadas na sociedade. É cultural , alega Simões, ao lembrar que o menino não é estimulado a ajudar nas tarefas de casa. 

A menina ganha vassoura, fogão, boneca para cuidar e o menino, bola para jogar futebol. Neuma Aguiar, socióloga da UFMG, e uma das poucas pesquisadoras no paí­s a tratar do uso do tempo, diz que a ajuda masculina se limita às compras, ao cuidado dos filhos, principalmente no fim de semana e nos momentos de lazer, e às incumbências com os animais de estimação. O trabalho mais pesado de faxina, cozinha e cuidados recai sobre os ombros da mulher. A saí­da que elas encontraram para dar conta de todo o trabalho é ter menos filhos.  

E há outro agravante. A mulher trabalha mais se for casada, revela estudo da economista do IBGE Cristiane Soares. No caso dos homens, a situação é inversa, pois se livram das tarefas domésticas: um homem solteiro que tem filhos pequenos e um idoso doente em casa dedica quase 20 horas semanais para o trabalho caseiro. O casamento o livra de mais de nove horas de trabalho, e a jornada cai para 10 horas e 42 minutos. A mulher, na mesma composição familiar, dedica 25 horas e 36 minutos quando não tem companheiro, jornada que aumenta em meia hora ao dividir a vida com um homem. Cristiane diz que a sociedade precisa discutir a intensificação do trabalho da mulher, principalmente no momento em que se discute igualar a idade de aposentadoria.

Igualdade é questão de justiça, diz a ONU

A representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, defende que a igualdade de gênero é questão de justiça. Para ela, quanto mais tarefas do lar as mulheres assumirem, menos chances têm de se dedicar a outros setores importantes, como a polí­tica.

Por que a desigualdade de jornada aumenta? 

Nadine GasmanQuanto mais as mulheres se sobrecarregam com cuidados familiares e administração dos lares, menos chances têm de se dedicar a setores da vida que lhes interessam, como a polí­tica. Estamos falando de ajustes que precisam ser feitos com base na justiça. O empoderamento das mulheres é viável com a consciência sobre os seus direitos, e com uma sociedade engajada em mudar estruturas que fortalecem o poder dos homens às custas dos sacrifí­cios e de violações de direitos de gerações de mulheres.

Por que as mulheres ainda ganham menos do que os homens? 

NadineO mundo do trabalho é outra área em que as desigualdades de gênero e raça são visí­veis devido à ocupação de postos de trabalho, oportunidades de ascensão profissional, condições de trabalho, remuneração e administração da vida pessoal. As mulheres ainda recebem cerca de 30% menos que os homens. O racismo e o sexismo geram situações extremamente cruéis para o desenvolvimento de carreiras. Quero chamar a atenção para a responsabilidade das empresas de se colocarem de forma ativa e colaborarem para o fim do racismo e do machismo. 

Como mudar isso?

NadineOs estudos apontam que, mantidas as condições atuais, levará 80 anos para alcançar a igualdade de gênero. A ONU adotou 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para que o mundo faça mudanças rápidas e estruturais até 2030. É preciso identificar onde estão mulheres e homens, como vivem, onde elas estão excluí­das, definir ações para corrigir essas distorções e assegurar o equilí­brio para que realmente possam desenvolver o seu potencial e lograr estas mudanças até 2030.

Como a mulher pode acelerar esse processo? 

NadineA igualdade de gênero é uma questão de justiça. É importante que mulheres e homens façam acordos sobre como administrar as tarefas familiares e de administração da casa. Estamos falando de novos valores sobre a vida, respeito e novas formas de relacionamento. Sem violência, intimidações e funções determinadas. Se todos vivem sob o mesmo teto, por que cabe às mulheres todo o trabalho?

De que forma a ONU atua para reduzir as diferenças? 

NadineA ONU Mulheres trabalha pela igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. As Nações Unidas acreditam que é possí­vel promover mudanças estratégicas no mundo até 2030. E as mulheres são decisivas nesse processo. Estamos desenvolvendo a iniciativa Planeta 50-50: um passo decisivo pela igualdade de gênero e buscando parcerias para que a igualdade seja uma realidade em 14 anos. Temos de trabalhar para eliminar todas as formas de desigualdades e discriminações.


Fonte: Jornal do Comércio