SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Artigo: Por que os juros são tão elevados no Brasil

Por Maria Lucia Fattorelli*
 

O Brasil é o paí­s que mais gasta com juros. Tanto os juros incidentes sobre os tí­tulos da chamada dí­vida pública , como os juros pagos pela sociedade em geral nas operações de crédito (empréstimos, cheque especial, cartão de crédito etc.) são disparadamente os mais elevados do mundo!
 

Não existe justificativa técnica, econômica, polí­tica ou moral para a cobrança de taxas tão elevadas, que prejudicam toda a sociedade e o próprio paí­s. Os juros extorsivos esterilizam grande quantidade de recursos que deveriam estar circulando na economia produtiva, pagando melhores salários e viabilizando serviços sociais que garantiriam vida digna para as pessoas.

 
O único beneficiário dessa generosa aberração é o setor financeiro privado nacional e internacional. E o maior responsável: o Banco Central do Brasil.

 
É simples.

 
No caso da dí­vida pública, é o Banco Central que convoca e realiza as reuniões com investidores que irão influenciar a decisão sobre a taxa Selictaxa básica de jurospelo COPOM. Para essas reuniões convida, quase que exclusivamente, representantes do próprio mercado financeiro que detém a imensa maioria dos tí­tulos da dí­vida. O que acham que os interessados em continuar recebendo as elevadas remunerações dos juros irão recomendar? É evidente o conflito de interesses. A recomendação desses especialistas é adotada pelo COPOM, sem qualquer crivo ou sequer debate por parte do Congresso Nacional. A taxa passa a vigorar como lei e ponto final. Das eleições realizadas em outubro do ano passado até agora, a Selic já subiu 16% e está em 12,75% a.a. Já está convocada nova reunião do COPOM para o dia 29/04/2015, que poderá aumentar ainda mais essa taxa, como já vem sendo anunciado pela grande mí­dia.

 
Também é o Banco Central que realiza os leilões para a venda dos tí­tulos da dí­vida interna emitidos pelo Tesouro Nacional. Na prática, os tí­tulos têm sido vendidos a taxas bem superiores à Selic, pois as poucas instituições financeiras que detêm o privilégio de participar desses leilõesos chamados dealerssó compram os tí­tulos quando as taxas alcançam o patamar que desejam. Generosamente, o Banco Central atende a desejo dos bancos e lhes oferece elevadas taxas de juros.

 
No caso dos juros cobrados da sociedade em geral pelas instituições financeiras, o Banco Central impede que os bancos privados abaixem as taxas de juros cobradas da população e empresas. Como assim? O Banco Central absorve todo o excesso de moeda que os bancos têm em caixa, entregando-lhes, em troca, tí­tulos da dí­vida interna que rendem os maiores juros do mundo. Essa operação recebe o nome de operação compromissada ou operação de mercado aberto , e pode durar de um ou alguns dias a meses. Atualmente, cerca de R$ 1 trilhão em tí­tulos da dí­vida estão sendo utilizados nessas operações. O que significa isso? Significa que R$ 1 trilhão poderiam estar no caixa dos bancos e, certamente, esses não iriam querer deixar esse dinheiro parado, sem render. O destino óbvio seria destinar esses recursos para empréstimos à sociedade, aumentando a oferta, o que sem sombra de dúvida provocaria uma forte queda nas taxas de juros. Os bancos entrariam em competição para oferecer taxas menores às pessoas e empresas, o que levaria a uma redução ainda maior nas escorchantes taxas cobradas pelo setor financeiro no Brasil. Pois bem; a atuação do Banco Central impede que isso aconteça e garante aos bancos a generosa remuneração dos tí­tulos da dí­vida, sem risco algum. A justificativa que tem sido dada para essa atuação é o combate à inflação , o que não se aplica, pois o tipo de inflação que temos no Brasil decorre do abusivo aumento do preço de tarifas e de alguns alimentos,

 
Vivemos uma verdadeira ciranda financeira no Brasil. Um dos paí­ses mais ricos do mundo, onde faltam recursos para áreas essenciais como educação, saúde, saneamento básico e para infraestrutura, não faltam recursos para os abundantes juros que tornam o paí­s como o local mais lucrativo do mundo para os bancos.

 
Nada de discussão se existem recursos orçamentários para pagar os elevados juros incidentes sobre os tí­tulos da dí­vida pública; ou sequer preocupação de onde virão os recursos. As limitações da Lei de Responsabilidade Fiscal não se aplicam à polí­tica monetária . Ou seja, se os recursos orçamentários existentes no orçamento federal não são suficientes para pagar juros, são emitidos novos tí­tulos da dí­vida e esses são utilizados para pagar juros. Isso mesmo. Estamos emitindo tí­tulos para pagar grande parte dos juros nominais incidentes sobre a dí­vida pública, o que fere a Constituição Federal, art. 167, que proí­be a contratação de dí­vida para pagar despesas correntes. E juros são despesas correntes, como salários, despesas de manutenção e demais despesas de custeio que se consomem durante o ano e não se caracterizam como investimentos. É por isso que denunciamos o Sistema da Dí­vida e exigimos a realização da auditoria. Esse poderoso esquema está provocando enorme lesão aos cofres públicos e à sociedade, além de aumentar de forma exponencial a própria dí­vida, comprometendo o nosso futuro.

 
Por isso são tão importantes os protestos que estão sendo organizados em todo o paí­s, contra o aumento das taxas de juros e pela auditoria da dí­vida. Estamos pagando caro por uma conta que não é nossa. Vamos participar!

 
*Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dí­vida www.auditoriacidada.org.br ehttps://www.facebook.com/auditoriacidada.pagina. Membro da Comissão de Auditoria Oficial da dí­vida Equatoriana, nomeada pelo Presidente Rafael Correa (2007/2008). Assessora da CPI da Dí­vida Pública na Câmara dos Deputados (2009/2010). Convidada pela Presidente do parlamento Helênico, deputada Zoe Konstantopoulos para integrar a Comissão de Auditoria da Dí­vida da Grécia a partir de abril/2015.

 
Fonte: Auditoria Cidadã da Dí­vida.