SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Artigo: “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”? Um olhar sobre suicí­dios e trabalho

por Fernando Ribas Feijó e Eduarda Cirolini Buriol


Fernando é médico do trabalho (Anamt) e mestre em Saúde Coletiva; Eduarda é psicóloga e em Saúde do Trabalhador

Os suicí­dios vêm crescendo ao longo das últimas décadas e dos últimos anos em todo o mundo, já sendo considerado um grave problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde. Em ní­vel mundial, os suicí­dios cresceram 60% nos últimos 50 anos. No Brasil, a taxa de suicí­dios cresceu 29,5% entre 1980 e 2006.3 Diversos estudos internacionais têm demonstrado uma importante associação entre a crise financeira global e o desemprego com a ocorrência dos suicí­dios. Tais estudos avaliaram o impacto de diversas crises mundiais, desde a crise de 1929, passando pela crise asiática de 1997-98 e pela crise mundial de 2008, a qual atingiu principalmente Europa e Estados Unidos. Em todos esses momentos, os processos de crise foram marco para o posterior crescimento dos í­ndices de suicí­dio.

Outro tema relacionado que vem ganhando enorme importância é o papel que o trabalho pode impactar no estresse, na saúde mental e, consequentemente, na ocorrência de suicí­dios. O trabalho cumpre um papel central na construção da identidade das pessoas. É no processo de trabalhar que os indiví­duos buscam reconhecimento e constituem suas subjetividades. Por outro lado, quando o trabalho passa a ser fonte de estresse, quando as condições de trabalho são precárias ou quando institui-se o assédio como elemento cotidiano no ambiente laboral, as consequências podem ser drásticas. Conforme refere o psicanalista e médico do Trabalho francês Christophe Dejours, tal contexto pode levar a um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, à depressão e ao desespero.

Em 2014, os três casos de suicí­dios de servidores do Judiciário no TRT da 2ª Região, em São Paulo, deixaram a categoria do Judiciário perplexa. Desses três suicí­dios, dois ocorreram dentro do local de trabalho. Uma trabalhadora jogou-se do 17º andar no seu próprio local de trabalho, somando-se a mais outros dois colegas do mesmo TRT que também anteriormente acreditaram ser essa a única saí­da para pôr fim ao seu sofrimento. Tal fato ocorreu menos de dois dias após o Seminário sobre Saúde e PJe da Fenajufe, realizado à época em Brasí­lia, no qual se ouviram diversos relatos de servidores que vivenciaram essas situações. Os colegas relatavam estarrecidos o fato de a solicitação de encerramento das atividades não ser prontamente atendida pela administração naquele momento, sob a justificativa de que o PJe não podia parar . Lembra algo parecido com a ironia de Chico Buarque em sua canção, quando um trabalhador morre na contramão atrapalhando o tráfego e o público.

Para Dejours, os suicí­dios dentro do local de trabalho são uma mensagem brutal do quão insuportável e gerador de sofrimento o trabalho pode tornar-se em algumas situações, enquanto, na verdade, deveria ser fonte de algum prazer e reconhecimento. O fenômeno desse tipo especí­fico de suicí­dio ganhou proporções mundiais com as dezenas de episódios ocorridos na France Telecom (empresa de telefonia francesa) e na Foxconn Telecom (empresa de produtos tecnológicos chinesa) após processo de reestruturação empresarial iniciado na década de 1980.

No Brasil, os suicí­dios no local de trabalho são pouco divulgados e ainda não ganharam a visibilidade que deveriam ter. Os bancários foram os primeiros trabalhadores a chamarem a atenção para a questão da saúde mental, a partir do acompanhamento cotidiano do adoecimento mental, dos afastamentos laborais por transtornos psí­quicos e da ocorrência de suicí­dios entre colegas. Mais recentemente, já são inúmeros casos de suicí­dio não divulgados entre atendentes de telemarketing, policiais, profissionais de saúde, entre outros. No funcionalismo público como um todo, a adoção do modelo gerencialista pelo Estadoimportado das empresas privadas com o objetivo de otimizar a gestão das pessoas no serviço públicotem acelerado o processo de adoecimento de servidoras e servidores. Mais do que nunca, é momento de união dos trabalhadores para combater as práticas de cobrança de metas abusivas, pressão no trabalho e produtivismo, que não levam em consideração a qualidade de vida e a saúde no trabalho.

A diretoria e a equipe de saúde do Sintrajufe-RS estão atentas a essa epidemia, que pode culminar em danos irreparáveis a muitos trabalhadores. Passados dois anos de atuação, a atual assessoria médica e psicológica no sindicato permanece atendendo diversas pessoas em sofrimento psí­quico relacionado ao trabalho, procurando dar apoio psicológico a quem necessite. O sindicato está engajado no combate ao assédio moral institucional e na preservação da saúde mental de todos os servidores e servidoras. Caso você esteja vivenciando um fato parecido ou tenha identificado alguma situação de risco com algum(a) colega, não hesite em procurar o sindicato. O objetivo prioritário é evitar novos acontecimentos trágicos como o de São Paulo e construir coletivamente um trabalho mais saudável no Judiciário Federal.