SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

O massacre de Porongos e a reescrita da história é tema de debate na Semana da Consciência Negra no Sintrajufe/RS

Nessa terça-feira à noite, o Sintrajufe/RS promoveu, na sede, o debate O massacre de Porongos e a reescrita da história , com o professor de História e pesquisador Jorge Euzébio Assumpção e o rapper e um dos coordenadores da Casa do Hip Hop de Esteio Rafael Diogo dos Santos, integrante do grupo Rafuagi. A atividade deu continuidade à programação da Semana da Consciência Negra, que teve iní­cio, no dia anterior, com a Marcha Independente Zumbi Dandara, da qual o sindicato participou.

Euzébio iniciou sua fala com uma saudação aos professores estaduais em greve, na luta contra um governo que está tentando liquidar com o nosso estado . Didático, o painelista falou sobre o negro no Brasil e no Rio Grande do Sul. Em todos os movimentos sociais armados ocorridos durante o Brasil no perí­odo do Império, houve a participação de africanos e seus descendentes, disse Euzébio. No perí­odo imperial, houve grandes revoltas, como Cabanagem (Pará), Balaiada (Maranhão), Alfaiates (Bahia) e Farroupilha (RS), todas sufocadas pelo Exército imperial. A diferença, destacou Euzébio, é que o movimento nas terras gaúchas foi feito pela elite dominante, sem apoio da população. Por esse motivo, aqui, foi buscada uma solução negociada com o poder central, inclusive com o perdão das lideranças.

A riqueza do Rio Grande do Sul era o charque, e as charqueadas eram consideradas os piores lugares para o trabalho escravo, devido à insalubridade. Quando teve iní­cio a revolta Farroupilhadevido a impostos e preço do charque “, negros foram arregimentados junto ao exército farrapo com a promessa de terra e liberdade. Ao final da revolta, esses negros chegaram a compor metade do exército farroupilha e se tornaram um empecilho para um acordo de paz. Para o governo central, esses escravos, que por anos lutaram, aprenderam a manejar armas e criaram consciência sobre liberdade, poderiam causar uma convulsão social se fossem libertos. Nas negociações, David Canabarro, representando os farrapos, e o Duque de Caxias, representante do imperador, decidiram pela morte dos negros da infantaria e dos lanceiros. A localização de seu acampamento (que era separado dos brancos) foi informada aos imperiais que, à noite, cercaram o local e assassinaram os negros; todos estavam desarmados. Naquela noite, em Porongos, foram mortos mais de cem negros escravizados; 300 foram feitos prisioneiros. Muitos terminaram seus dias como escravos, no Rio de Janeiro, onde foram submetidos a trabalhos estafantes, insalubres e humilhantes.

Para Euzébio, os festejos farroupilhas ocorridos anualmente fazem parte de uma história criada; e é preciso separar folclore da história, adverte. Como negro e pobre, não tenho nada a festejar no 20 de setembro , afirma. Os mesmos que mandavam são os mesmos que estão no poder hoje. Os trabalhadores brancos e negros continuam na mesma situação. O professor mostrou, a partir de números oficiais da época, que negros e negras eram a maioria da população no Brasil; chegando a ser quase o dobro da população branca. Apesar de expressiva numericamente, essa parcela da população foi apagada da historiografia. Falar de negro é falar de sonegação histórica, a parte da história que não é contada , afirmou, completando: os negros e os brancos pobres não ainda não tiveram seu lugar na história .

Cultura em rede para mudar

Rafael, o Rafa do Rafuagi, como também é conhecido, contou que há poucos anos começou ler e a aprender sobre a história não contada, como a de Porongos, e que, ao entender o processo histórico, passou a entender o porquê de várias mazelas sociais. Dessa percepção, entre outras ações, surgiu a ideia de produzir um documentário, Manifesto Porongos , que conta outra versão da história, dá voz aos negros massacrados, já recebeu vários prêmios e teve a parceria do Sintrajufe/RS. O ví­deo é distribuí­do em escolas e instituções e está sendo utilizado como ferramenta de ensino e formação. Para Rafael, é importante levar a informação para a base e se enxergar nessa história, criar redes de conhecimento e apoio para movimentar a sociedade e produzir mudanças.

Há anos, Rafael, por meio da cultura hip hop, desenvolve trabalhos, pricipalmente, com a juventude. Essas ações o levaram a articulações com grupos em outros estados e na América Latina. O trabalho tem por base quatro pontos: sensibilização, formação, empoderamento e profissionalização e parte da troca de saberes, da solidariedade unida à ação. Segundo Rafael, é preciso que as pessoas se conscientizem de sua força enquanto conjunto: conectados, trabalhando em rede, contribuindo e construindo com ideias e saberes para alcançar a transformação social. A Casa da Cultura Hip Hop, em Esteio, a primeira do Brasil, é um passo importante para a concretização dessa luta. O local, inaugurado em neste mês , abriga várias atividades e se constitui em uma expressão de resistência.

A ação coletiva tem muito mais impacto que ações individuais e pontuais , assinalou Rafael, reforçando que cada pessoa pode ser tornar um multiplicador, compartilhando saberes de forma solidária. Conhecimento e educação estão na base, mas, nestes tempos de redes sociais, afirmou, o mundo precisa mesmo é de pessoas que façam, não que falem . Para o painelista, o massacre de Porongos, assim como outros fatos históricos, refletem-se no racismo, na violência e na intelerância dos dias atuais. Por isso, reafirmou, é preciso conhecer, se apropriar, mostrar, trazer para a história. Ele lembrou que, de cada 10 jovens assassinados no Brasil, 9 são negros; a maioria das mulheres estupradas e ví­timas de violência é composta por negras. Ele ressaltou que é preciso ter atitude contra o racismo, o machismo e a homofobia e isso vai muito além de discurso no Facebook. Se preciso, sairemos da zona de conforto para a zona de confronto , concluiu.

As atividades continuam durante a semana:

23 de novembroLuta e Resistência: O cotidiano dos Quilombos Urbanos de Porto Alegre

Debate sobre a realidade dos Quilombos Urbanos que lutam pela titulação

Local: Ocupação 7 de SetembroQuilombo dos Machado (Av. Rocco Aloise, 950, bairro Sarandi)

Horário: 19h

Haverá um micro-ônibus à disposição dos colegas, saindo do Anexo da JE às 17h20min, passando nas varas trabalhistas e, na sequência, na Justiça Federal. Após a atividade, o transporte irá levar todos de volta até o prédio das varas do trabalho.

24 de novembroUbuntu! Cultura e Resistência

Sarau de Poesia com o Sopapo Poético e show com a Banda Afroentes

Local: Sintrajufç 

Horário: 20h

27 de novembroVidas Negras Importam: O Sistema Penal e o caso Rafael Braga 

Debate com o defensor público Andrey Melo e Karen Santos, do Comitê pela Liberdade de Rafael Braga

Local: Sintrajufç 

Horário: 19h

Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS