O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo na manhã desta quinta-feira, 5, na tentativa de evitar um processo de impeachment em meio à crise desencadeada por fraudes em um dos maiores bancos do país. O próprio Peña e também o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, outro que renunciou ao seu cargo, podem ter envolvimento direto com a fraude, segundo a imprensa. O caso envolve recursos de fundos de pensão e do Instituto de Previdência Social (IPS) do Paraguai, além das economias de quase metade dos paraguaios.
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Entenda a crise
O Banco Uneo é o maior emissor de cartões de créditos do Paraguai e tem cerca de 3 milhões de clientes, quase metade da população do país, que é de 6,4 milhões. Além disso, operava valores de empresas estatais, incluindo fundos de pensão e recursos do Instituto de Previdência Social, totalizando 850 milhões de dólares em recursos públicos. Após fiscalizações, foram feitos ajustes em seus balanços, que apontaram que o índice de solvência (capacidade de pagamento) era, na realidade, de menos da metade do mínimo exigido.
O caso acabou gerando uma intervenção do Banco Central no Uneo, sob suspeitas de que próprio Banco Central estava acobertando a situação. Seu presidente, Carlos Carvallo, renunciou no início dessa semana. Carvallo foi presidente do Uneo antes de assumir o Banco Central
Agora, os paraguaios com contas no Uneo não estão conseguindo retirar suas economias. Muitos foram às agências físicas e encontraram as portas fechadas, incluindo aposentados e aposentadas que recebiam seus proventos por meio do Uneo. O Banco Central assegurou que os clientes com depósitos bloqueados na instituição “receberão um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis”, cerca de R$ 9,2 mil. Os demais valores, ao menos por enquanto, poderão permanecer bloqueados. Além disso, todo o sistema bancário paraguaio enfrenta problemas nesta semana, com dificuldades na operação dos aplicativos.
Até mesmo os jogadores da seleção paraguaia de futebol divulgaram uma nota conjunta cobrando soluções para a população e lamentando que milhares de famílias enfrentam uma situação de “angústia, incerteza e preocupação”.. A nota também cobra punição aos responsáveis. “Ser paraguaio não é apenas vestir a camiseta. É não abandonar o seu povo quando mais precisa de ti”, diz o texto.
Oito executivos do Uneo foram presos preventivamente sob suspeita de conduta indevida em situações de crise, lesão de confiança e violação da obrigação de manter livros contábeis e comerciais.
Aliado de Trump, ex-funcionário do FMI e ex-ministro da Fazenda, Santiago Peña foi acionista do grupo que controla o Banco Ueno
Na manhã desta quinta, o Congresso deu início a um debate sobre um possível impeachment do presidente do Paraguai. Santiago Peña, porém, adiantou-se e renunciou ao cargo. A oposição acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. A acusação também aponta que o Banco Central teria encoberto irregularidades.
Tendo assumido a Presidência em 2023, Peña foi, até 2025, acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno. A oposição diz que a participação de Peña no escândalo é direta: “existe um mecanismo que foi montado antes mesmo de ele assumir o governo”, disse o senador oposicionista Rafael Filizzola à AFP. Desde então, Peña “flexibilizou os mecanismos das leis anticorrupção, criou-se o banco (Ueno), do qual ele era acionista e depois renunciou à participação diante das pressões”, afirmou o senador, que completou: “Quase todos os recursos públicos e as economias do Estado foram direcionados ao banco. Sua ligação com esse escândalo é direta”.
Enquanto presidente, Peña foi aliado de Donald Trump. Antes, havia trabalhado no Fundo Monetário Internacional e atuado como ministro da Fazenda do Paraguai.
Com a renúncia, Santiago Peña escapa da investigação a que seria submetido no Congresso e mantém seu foro privilegiado. Isso porque, no Paraguai, ao concluir o mandato, o presidente ganha o cargo de senador vitalício. Ele pode, assim, participar de comissões e discussões, embora não possa votar. Para Peña, o problema é que a Câmara dos Deputados não aceitou sua carta de renúncia e abriu um processo de impeachment. Caso isso se confirme, ele poderá ser julgado pela Justiça comum.
Milhares de brasileiros migraram para o Paraguai em busca de “paraíso” neoliberal
Nos últimos meses, dezenas de milhares de brasileiros partiram para o Paraguai. De “influencers”, especialmente no Youtube, muitos ouviram que o país seria uma espécia de paraíso neoliberal, com menos impostos para empreender e facilidade para ganhar dinheiro. Em 2025, foram 23,5 mil brasileiros que receberam autorização para residir no Paraguai; apenas nos três primeiros meses de 2026, mais 9,2 mil.
Muitos pequenos e micro empresários foram para o Paraguai em busca de mais “facilidade” para contratar mão de obra; ou seja, menos direitos trabalhistas e salários mais baixos para os funcionários. Em reportagem publicada em abril pela BBC, brasileiros que estavam em uma fila do serviço de imigração diziam que, no Brasil, não tinham “liberdade” e que o Paraguai seria “o maior país da América Latina muito em breve”.
Santiago Peña, nono governante de direita entre os dez que comandaram o país desde a redemocratização, foi quem criou, em 2025, os mutirões migratórios. A reportagem da BBC explica que “a chegada de imigrantes ao Paraguai é anunciada como uma indicação de que o país vai bem – uma das peças promocionais oficiais sobre o assunto diz que o ‘Paraguai abre suas portas ao mundo’. Os estrangeiros são apontados como responsáveis por trazer dinamicidade à economia local, ao mesmo tempo em que o governo muda leis e dá ainda mais incentivos fiscais para atrair investimentos e empresas”.
Agora, todo o sistema político e financeiro do Paraguai aparece sob suspeição. A crise até o momento repercute nas economias dos trabalhadores e trabalhadoras e nas aposentadorias. E mais: a falta de confiança, conforme a imprensa, pode chegar a todo o sistema bancário do Paraguai, afastando os investidores estrangeiros e o capital internacional que Peña tanto quis atrair.
Foto: Presidência.













