SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

PRECARIZAÇÃO

Trabalhadores são preguiçosos, ida ao banheiro é crime e sindicatos são ameaça: a “moderna” organização do trabalho da Amazon a Novo Hamburgo

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Na última terça-feira, 29, o Sintrajufe/RS denunciou a situação de trabalhadores e trabalhadoras da fábrica Calçados Zenglei, em Novo Hamburgo. O Sindicato das Sapateiras e dos Sapateiros de Novo Hamburgo protestou, na segunda-feira, 28, contra o constrangimento ao qual foi submetida uma trabalhadora da empresa que, impedida de ir ao banheiro, urinou na roupa no local de trabalho. Esse tipo de situação, porém, longe de se tratar de um caso isolado, é a realidade e a política permanente de organização do trabalho na perspectiva chamada, por seus entusiastas, de “moderna”.

Um exemplo importante desse processo é a realidade dos trabalhadores e trabalhadoras da gigante global Amazon. Em abril, o Sintrajufe/RS já havia publicado matéria que tratava do levante dos empregados da Amazon nos Estados Unidos contra a precarização do trabalho. Uma das denúncias era justamente de que a empresa obrigava trabalhadores a urinarem em garrafas para não interromper o trabalho. A inviabilização do horário do almoço e a tentativa de impedir a organização sindical. A partir daí uma disputa pela organização do sindicato se deu, com forte resistência patronal, a derrota da organização sindical se concretizou mas o debate e suas consequências não pararam por aí.

A moderna Amazon na vanguarda do atraso

Neste mês de junho, o jornal The New York Times publicou artigo que traz entrevistas com trabalhadores e antigos diretores administrativos da Amazon. A matéria denuncia o uso de políticas corporativas para controle dos funcionários a partir da crença do fundador da empresa, o bilionário Jeff Bezos, de que todo trabalhador é preguiçoso, informação apresentada pelo ex-vice-presidente da Amazon, David Niekerk, que ajudou a formular o sistema de administração dos armazéns da empresa. Ao mesmo tempo, conforme o jornal, Bezos desistiu da construção de um novo armazém da empresa em Nova Iorque por medo da organização sindical, considerada por ele uma grande ameaça e uma receita para “a marcha da mediocridade”. Ferramentas de gestão utilizadas incluem, conforme a matéria, o padrão empregatício de curto prazo, a utilização de tecnologias para controlar o trabalho dos empregados, altas metas de produtividade e pausas limitadas de descanso.

Os casos da Amazon e da Calçados Zenglei estão conectados pelas novas práticas que o capital tenta impor ao mundo do trabalho. Não se trata de uma mera “visão medieval” de alguns empresários, mas do que há de mais “moderno” em matéria de organização do trabalho e da produção, uma ideologia compartilhada por grandes empresas globais e locais. Essa organização parte da ideia de que é necessário tirar todo o possível dos trabalhadores e das trabalhadoras, espremer ao máximo a força de trabalho para gerar mais lucro. Para isso, busca-se o desmonte de direitos e ataca-se a organização dos trabalhadores, conformada nos sindicatos. Foram essas práticas que medidas como a reforma trabalhista e a liberação das terceirizações buscaram legalizar.

Em Novo Hamburgo, após pressão dos trabalhadores e trabalhadoras, a empresa suspendeu a produção por três dias, liberando seus funcionários até a próxima segunda-feira. Uma demonstração de que a luta é o único caminho para enfrentar as novas práticas que o capital busca aplicar, um enfrentamento necessário e possível tanto global quanto localmente.