SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

CARA E FOCINHO

Privatização da Petrobras, ataques à licença-maternidade e mentiras sobre escravidão: novo ministro é a cara do governo Bolsonaro

Ler conteúdo

Nessa quarta-feira, 11, Jair Bolsonaro (PL) alterou o comando do Ministério de Minas e Energia. Saiu do ministério Bento Albuquerque, substituído por Adolfo Saschsida. O novo ministro tem um longo histórico de declarações contra os direitos das mulheres e que carregam uma forte carga negacionista em relação, por exemplo, à escravidão. Agora, Saschsida quer imediatamente privatizar a Petrobras. Entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2022, ele foi Secretário de Política Econômica entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2022 no Ministério da Economia, uma espécie de braço direito de Paulo Guedes.

Já na quinta, 12, o novo ministro entregou a Paulo Guedes pedido para iniciar os estudos de privatização da Petrobras e da Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA), a estatal responsável por comercializar o óleo e o gás extraídos da camada pré-sal. Guedes já afirmou que encaminhará imediatamente a proposta. A ideia de privatização da Petrobras é mais uma que, se consolidada, trará graves consequências ao povo brasileiro, da perda de soberania sob um dos grandes patrimônios econômicos brasileiros até o aumento ainda mais acentuado do preço dos combustíveis. Basta ver o exemplo da Bahia, onde a refinaria Mataripe, privatizada em novembro do ano passado, definiu uma política de preços independente que fez, por exemplo, com que uma queda de preços de 3% em dezembro de 2021 não fosse repassada. Não há nenhum interesse público, apenas a busca por mais lucro. Esse é o resultado da privatização.

Ministro é contra a licença-maternidade, para ele este direito é um “crime”

O ministro tem um longo histórico de declarações que, embora absurdas (ou justamente por isso), alinham-se ao mote geral do atual governo. Em uma aula realizada há alguns anos pelo YouTube, Sachsida declarou que quando vê uma mulher “com um bustiezinho, uma calça colada, você fala assim: ‘pô, essa mulher deve ser solteira'”. Ele ressaltou que não ligaria para comentários o acusando de ser machista. Em outra aula, o novo ministro reclamou da participação das mulheres no mercado de trabalho e defendeu salários mais baixos para as mulheres: “Não necessariamente é discriminação, é simplesmente o comportamento racional do empresário […] Se o casal tiver um filho provavelmente é a mulher que vai cuidar do filho. Aí você vai dizer para mim: ‘Adolfo, mas o homem fica bêbado mais que a mulher? Fica. Então, menos para o homem neste ponto. Mas também quem vai mais ao médico é a mulher, então, ela vai faltar mais para ir ao médico. O empresário está fazendo essas contas”, declarou em uma das aulas. “Você vai ver que uma magnitude expressiva de mulheres prefere uma jornada menor. Ou porque precisa ficar com os filhos ou porque ela pretende ficar mais com a família ou porque ela acha que a regra de sustentação é do homem. Eu não sei a explicação, eu sei do resultado”, concluiu, ao justificar a diferença salarial entre homens e mulheres.

No mesmo vídeo, Sachsida diz que a licença-maternidade é um “crime contra a mulher”. Para ele, o período de seis meses é exagerado e se colocou contra o benefício dado às mães. “Cara, você consegue imaginar uma empresa ficar seis meses sem o seu gerente? Não tem jeito. Quando eu fui contra essa ideia de dar licença maternidade de seis meses, o pessoal me xingou. Não é nada disso, é que eu me preocupo com as mulheres”, completou.

A licença-maternidade é uma importante conquista das mulheres que data de 1943. É um direito que passou a ser garantido com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com 84 dias de licença. A partir de 1973, o Brasil passou a seguir a recomendação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no sentido de que o período de licença fosse pago pela Previdência Social, ao invés do próprio empregador (esse formato inicial fazia com que muitos não contratassem mulheres para não ter que arcar com a despesa). Com a Constituição de 1988, a luta das mulheres conseguiu ampliar o período da licença de 84 para 120 dias, além da garantia de estabilidade no emprego antes e logo depois da gestação. Há empresas que possibilitam que as puérperas recebem licença de seis meses, garantindo um acompanhamento ainda mais efetivo para os recém nascidos. A licença paternidade, aliás, essa mais recente, é outra conquista que vai no mesmo sentido, partindo do entendimento de que cuidar dos filhos é uma tarefa compartilhada.

Para ministro, Brasil não tem dívida histórica com povo negro

Em outro vídeo, Sachsida se posicionou contra as cotas raciais porque, segundo ele, não há dívida histórico do Brasil com o povo negro. No vídeo, o novo ministro dá a entender que, se há essa dívida, ela é com alemães, italianos e japoneses: “O último grupo que foi extremamente maltratado no Brasil não foi negro. O último grupo que levou pancada pra caramba no Brasil foram alemães, italianos e japoneses. Se você pegar, na Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram transferidos pra um lugar lá no Amapá…no Acre, se não me engano. Compulsório, não teve conversa, pegou os japoneses e levaram lá pro Acre. As plantações de café eram italianos, japoneses… É difícil você argumentar que 200 anos depois da escravidão existe uma dívida histórica”, diz Sachsida, e completou: “Se tem algo que o Brasil pode ensinar para o mundo é a maneira como as raças interagem. Olha a minha cor aqui ó [ele mostra o braço], eu sou branco, eu sou negro. A minha irmã é mais escura do que eu. Ela é branca, ela é negra”, afirmou.

O ministro foi nomeado por Bolsonaro dois dias antes do 13 de maio, data que marca a abolição oficial da escravidão, em 1888. Essa data oficial, porém, que representa uma conquista de muito tempo de luta, não resultou em uma vida verdadeiramente livre: apesar dos esforços dos abolicionistas, o processo de abolição acabou perpetuando a desigualdade racial no Brasil pelas décadas seguintes até os dias atuais. A forma como a abolição foi feita não garantiu dignidade e direitos, muito menos reparação às pessoas que sofreram com a escravidão. É por isso que os negros ainda são os que mais sofrem com a violência e os que recebem os menores salários, ainda estão – apesar da conquista das cotas – menos nas universidades e mais em trabalhos precários. Uma realidade que o novo ministro insiste em negar.

Com informações da Agência Brasil, do Uol e do iG.