SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

33 MILHÕES COM FOME

Guedes minimiza problema da fome no Brasil, contesta estudos e briga com a realidade

Nessa quarta-feira, 21, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez eco ao que Jair Bolsonaro (PL) já falara e questionou que 33 milhões de brasileiros e brasileiras realmente passem fome. Guedes parece não acompanhar as constantes notícias que dão conta do desespero da população para conseguir comer, nem ver a multiplicação de pessoas pedindo dinheiro nas esquinas – além, é claro, de negar os dados de estudos sérios sobre o tema.

Fome cresce

Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional mostram que a fome dobrou nas famílias com crianças menores de 10 anos: de 9,4% em 2020 para 18,1% este ano. O problema da fome vem se generalizando no país no último período. Conforme o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, em 2022, 33,1 milhões de brasileiros e brasileiras não têm o que comer. No Rio Grande do Sul, 14,1% dos domicílios registram insegurança alimentar grave, ou seja, fome.

Governo faz de conta que não vê

Em um evento do setor automotivo, Guedes disse que o estudo é “falso”: “Isso são fatos econômicos, não adianta. A tática política é de barulho: 33 milhões de pessoas passando fome. É mentira, é falso. Não são esses os números”. E completou: “é impossível que tenha 33 milhões de pessoas passando fome. Elas estão recebendo três vezes mais do que recebiam antes. E mesmo que tenha tido inflação e aumento de preço, não multiplicou por três, então o poder de compra está mais do que preservado”.

Guedes reforça o discurso do governo, que tenta encobrir a realidade brasileira. Em agosto, Bolsonaro negou, em pelo menos duas ocasiões, o problema da fome no Brasil: em entrevista à rádio Jovem Pan e, depois, em um podcast sobre fisiculturismo, Bolsonaro contestou os dados e o que é noticiado pela imprensa e visto nas ruas todos os dias: “Se a gente for em qualquer padaria, não tem ninguém ali pedindo para você comprar um pão para ele. Isso não existe”, disse. Mais tarde, insistiu: “Fome no Brasil? Fome para valer, não existe da forma como é falado”.

A realidade cotidiana

Além dos dados, durante o atual governo se multiplicaram os casos concretos que demonstram o desespero de grande parcela da população brasileira frente ao problema da fome e da miséria. Até mesmo a divisão de um ovo entre quatro crianças já foi relatada e fotografada em uma escola, neste momento em que o governo mantém o congelamento das verbas para a merenda escolar – que não foram reajustadas durante todo o mandato de Bolsonaro.

Em julho de 2021, ganharam destaque nacionalmente cenas gravadas em uma “fila do osso” na cidade de Cuiabá: dezenas de famílias esperavam para receber de um açougue doações de ossos. As doações eram feitas pelos funcionários pela porta dos fundos do açougue e serviam para aplacar as fomes das famílias, jogadas à miséria pela crise econômica e pela falta de assistência do governo. Um ano depois, em julho de 2022, na região central do Rio de Janeiro, um grupo de pessoas foi fotografado procurando restos de alimentos em um caminhão de coleta de lixo. Outros registros desse tipo se espalharam pelo país nos últimos anos, acrescentando drama à busca, cada vez mais comum, por restos de ossos de boi, pés de frango e outras “soluções” para o desespero que acompanha a fome em milhões de brasileiros e brasileiras. Em agosto, ganhou repercussão a gravação da ligação de um menino de 11 anos à polícia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte: “Seu policial, aqui… É porque aqui em casa não tem nada para a gente comer. Aqui, minha mãe só tem farinha e fubá para a gente viver”, disse o menino.