SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

TRABALHO REMOTO

Em reunião aberta, Sintrajufe/RS debate com categoria balcão virtual, uso de Whatsapp no trabalho e questões vinculadas ao trabalho remoto

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Na última quarta-feira, 7, o Sintrajufe/RS realizou a segunda reunião aberta com a categoria, por videoconferência, para debater a implementação do balcão virtual na Justiça do Trabalho e na Justiça Federal, a utilização do Whatsapp no trabalho e outras questões vinculadas ao trabalho remoto no Judiciário Federal e no Ministério Público da União. A professora da UnB e especialista em psicologia social e do trabalho Ana Magnólia fez a fala principal do encontro, realizado em formato de grupo focal, destacando alguns aspectos relacionados ao tema que seriam, a seguir, objeto de discussão entre os e as participantes.

A diretora do Sintrajufe/RS Cristina Viana mediou o encontro. Ela abriu a atividade apresentando um panorama da situação do balcão virtual. No final de março, o TRT4, o TRF4 e a JFRS publicaram portarias regulamentando a implementação do balcão virtual. A medida consta na resolução 372/2021, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O assunto foi tratado em reunião do Sintrajufe/RS com a administração do TRT4 no dia 16 de março. Depois, reunião aberta com a categoria, em formato de grupo focal, foi realizada no dia 23. O sindicato vem apontando problemas nas dinâmicas propostas, principalmente no que diz respeito ao período de funcionamento e às dificuldades em relação aos equipamentos.

Pessimismo em relação ao capital e resistência à precarização

Em sua apresentação, a professora Ana Magnólia caracterizou o balcão virtual como “nefasto para os trabalhadores” e uma forma de substituição dos postos de trabalho. Em relação ao Whatsapp, destacou que tem características positivas em relação à aproximação de vínculos afetivos, mas que, como ferramenta de trabalho, pode ampliar os problemas para trabalhadores e trabalhadoras. “Não sou contrária às tecnologias, o problema que se coloca é a aplicação dessas tecnologias em um modelo de organização do trabalho que foi produzido no começo do século XIX e continua até hoje”, apontou. Conforme a pesquisadora, o capital se apropria de uma ferramenta que tem como princípio a velocidade para aplicar a uma organização do trabalho taylorista. Os aplicativos, assim, tornam-se parte de mais uma das estratégias do capital para escapar das crises e manter sua força, agilizando os processos e precarizando o trabalho, na mesma lógica, por exemplo, das terceirizações: “mas até quando o trabalhador vai suportar essa identificação com a máquina?”, questionou?

O que se gera, com o Whatsapp, destacou Magnólia, é uma constante “expectativa de resposta”, com o aplicativo exigindo respostas rápidas e, dessa forma, “usurpando nossa condição de reflexão”. Por isso, para ela, o acionamento de ações laborais fora da jornada de trabalho, via Whatsapp, não pode ser aceito, e, mesmo no horário correto de trabalho, o ideal seria acabar com o uso dessa ferramenta, pois ela permite uma lógica de “preenchimentos de vazio” o tempo todo, nao restando o tempo necessário para refletir e criar e gerando uma identificação entre o trabalhador e a máquina que é prejudicial para a subjetividade. Não sendo possível a eliminação, cabe atuar pela “redução de danos”, com regramentos claros e busca de caminhos de separação entre espaços e momentos de trabalho e de lazer. Para Magnólia, o modelo capitalista busca capturar a subjetividade por meio dos aplicativos, criando uma falsa intimidade entre trabalhadores e patrões, falsificando vínculos e escondendo, assim, o conflito capital x trabalho.

Além disso, apontou Magnólia, a tendência apresentada pelas formas de aplicação das tecnologias aos processos de trabalho, como a inteligência artificial, fazem com que os trabalhadores acabem por alimentar um “big data” sendo, a seguir, substituídos. “Não sou otimista em relação ao capital, ele quer destruir. Sou otimista em relação aos seres humanos, que querem resistir”, definiu.

Partir da realidade dos locais de trabalho para buscar soluções

Após a fala de Ana Magnólia, foi aberto espaço para considerações dos participantes. Foram relatados casos específicos de problemas que vêm sendo enfrentados no trabalho remoto em meio à pandemia, assim como foram feitas considerações sobre o balcão virtual e o uso do Whatsapp. Colegas apontaram as contradições entre as vantagens oferecidas pelas tecnologias e, por outro lado, a sobrecarga trazida aos servidores e servidoras. Embora as tecnologias facilitem o acesso à Justiça, o aumento do número de processos, no caso da Justiça Federal, por exemplo, não foi acompanhado por um aumento no quadro funcional. De diferentes formas, essa é a realidade encontrada em todos os âmbitos do Judiciário e do MPU.

Foi manifestada, ainda, a preocupação com o fechamento de postos de trabalho a partir de instrumentos como a inteligência artificial e os processos de terceirização, bem como com a aplicação desregulada de tecnologias aos processos de trabalho. Neste momento, de pandemia e trabalho remoto forçado – e necessário –, tem se visto aumento da sobrecarga de trabalho, dificuldade de separação entre ambientes privados e laborais e, como consequência, adoecimento. É sabido, ao mesmo tempo, que algumas das experiências tecnológicas e de trabalho à distância poderão persistir mais à frente, motivo pelo qual, destacaram colegas e diretores do Sintrajufe/RS, faz-se necessário debater o tema e buscar regulamentações e soluções que impeçam prejuízos aos trabalhadores e às trabalhadoras.