SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

NOVEMBRO NEGRO

Com participação do Sintrajufe/RS, atividades do Mês da Consciência Negra da JFRS tratam de diversidade, inclusão e luta antirracista

O Sintrajufe/RS, apoiando a programação do Mês da Consciência Negra JFRS 2022 – Edição Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, promovido pelo Grupo de Trabalho (GT) Direitos Humanos, Equidade de Gênero, Raça e Diversidades da instituição, garantiu a presença da colega Magali Dantas na mesa-redonda no dia 18, quando foi realizada uma mesa-redonda em homenagem à professora Petronilha. As atividades tiveram início no dia 8, com a Conferência Magna online com a jornalista e empresária francesa Alexandra Loras. As diretoras Camila Telles, Luciana Krumenauer e Roberta Vieira e os diretores Fabrício Loguercio e Zé Oliveira representaram o sindicato.

Alexandra Loras iniciou sua fala, dia 8, apresentando seu objetivo para a Conferência Magna, em formato virtual, era “refletir sobre diversidade e inclusão, celebrar o mês da consciência negra e repensar nossa reparação, ouvir a dor do outro e perceber que, no Brasil, o racismo continua agindo na estrutura”. Ela vive no país há dez anos para acompanhar o esposo, cônsul, e apresentou dados e exemplos da presença do racismo nas mais diversas áreas.

Ela contou que, ao chegar ao Brasil, “num contexto de muitos privilégios”, percebeu que era a única mulher negra naquele círculo social, apesar de 56% da população brasileira ser negra. “Eu sofria de micro-humilhações, microagressões todos os dias. Eu recebia na residência consular mais de seis mil pessoas por ano. O protocolo francês faz questão que eu fique na entrada para dar as boas-vindas aos convidados. Muitas vezes as pessoas achavam que eu era a empregada da residência consular. Então, não adianta você falar cinco idiomas, ter viajado para mais de 50 países, ser uma mulher negra bem-sucedida. O racismo atravessa o meu corpo.”

Loras ressaltou que o mundo está longe de ser democrático e humanitário, por isso é preciso atuar em sua transformação. Para isso acontecer, é necessário que as pessoas percebam os privilégios, notem, nos espaços que frequentam, se há diversidade. Se não houver, “perceber que algo que parecia natural para você talvez seja errado, talvez seja injusto”.

“Vocês, da Justiça Federal do RS, são formadores de opinião, com certo privilégio de poder agir e atuar. Como podemos atuar como agentes de transformação? Primeiro, parar de negar a questão racial, parar de negar que podemos ascender na sociedade somente com a suposta meritocracia”, analisou.

Petronilha é homenageada pela luta contra o racismo

No dia 18, a professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva foi homenageada, por sua atuação na construção das bases da educação antirracista no Brasil. Ela nasceu em 1940, na antiga Colônia Africana em Porto Alegre, onde hoje é o bairro Rio Branco, formou-se em Letras pela UFRGS, com licenciatura em português e francês, e com esse percurso se aproxima da história da educação no estado gaúcho.

Na composição da mesa-redonda em que foi falado sobre sua trajetória, a colega Magali Dantas, do GT Direitos Humanos, Equidade de Gênero, Raça e Diversidades, destacou que qualquer política pública ou iniciativa a ser implementada no Brasil precisa, primeiro, enfrentar o racismo. Ela destacou que o evento reuniu três gerações de mulheres negras. Também participaram, online ou presencialmente, a homenageada, Petronilha, Joana Célia dos Passos, vice-reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Fernanda Oliveira Silva, professora do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A historiadora pontuou que “é fundamental termos essas homenagens, que nós possamos nos conhecer. Infelizmente, fruto do racismo epistêmico, muitos dos nossos conhecimentos ainda são negados a maior parte da população”. Ela destacou que Petronilha foi precursora nos estudos das experiências de comunidades negras rurais, com sua tese de doutorado centrada na Comunidade do Limoeiro. Esta trajetória levou a sua indicação, pelo movimento negro, no Conselho Nacional de Educação, onde atuou como relatora na comissão que elaborou o parecer que regulamentou que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (lei 10639/2003)


A vice-reitora da UFSC destacou a importância de Petronilha na construção das políticas públicas voltadas a população negra, principalmente as diretrizes curriculares nacionais para o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nos currículos escolares e sua influência e determinação na defesa das ações afirmativas para estudantes negros, indígenas e de escola pública.

Em sua fala de encerramento, a homenageada reforçou a construção coletiva que faz parte de sua trajetória compartilhando um provérbio africano. “Eu sou porque vocês são. Eu sou porque nós somos”. A educadora refletiu sobre o projeto de sociedade que se constrói para o país e o papel de cada um nessa elaboração, já que a forma como se convive ou não com as outras pessoas participa desta construção.

Ela lembrou que a sociedade brasileira se formou, desde o século XVI, “em violências com tentativas de destruição dos povos indígenas, de suas culturas e contra os africanos que eram escravizados”. A homenageada afirmou a necessidade de se discutir “que nação nós queremos? Que herança queremos deixar para as próximas gerações? Queremos uma sociedade tal como está?”. Para ela, a educação é um instrumento forte na construção de sociedade e para se ter uma sociedade sem racismo é necessário buscar, “em diversas áreas de conhecimentos, referências, práticas e teorias que tenham raízes nos diferentes povos que constituem a nação”. Ela encerra sua fala provocando os presentes a refletirem: “para qual projeto de sociedade eu trabalho?”

Em sua manifestação, a diretora do Sintrajufe/RS Roberta Vieira ponderou que o fato de somente na idade adulta, junto a movimentos sociais, ter conhecido Petronilha e sua trajetória, “nos ajuda a entender o racismo estrutural e estruturante”, pois “como uma pessoa que lutou tanto pela qualidade do nosso sistema educacional não é publicizada e divulgada por esse mesmo sistema educacional?”.

“São os ensinamentos e as vicissitudes de vida de mulheres negras como a professora Petronilha que nos motivam a nos mover também, são essas nossas referências pretas que nos inspiram a chegar a um lugar branco como o Poder Judiciário e nos juntarmos em coletivo, por exemplo, como o caso do Núcleo de Negros e Negras do Sintrajufe” e o Coletivo Negros do TRT4. Roberta afirmou que o Brasil não pode mais esperar o mês de novembro pra falar de igualdade racial, “eu quero viver em um país que concretize o verdadeiro significado de democracia: um governo exercido pelo povo. Povo esse que, no caso do Brasil, é majoritariamente escuro e feminino”. Por isso, é preciso que se avance no movimento de construção de um país “sem racismo, sem discriminação e de respeito aos direitos humanos”, com ações concretas “de combate ao racismo e valorização da cultura, dos saberes e das pessoas negras”.

Fonte: JFRS