SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

PRECISA DE REFORMA

Bolsonarização prejudicou a PRF: crise passa por apagão em sistemas, denúncia de improbidade e ameaça à vida de agentes

O diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Silvinei Vasques, tornou-se réu por improbidade administrativa na Justiça Federal do Rio de Janeiro; o Ministério Público Federal (MPF) alega que ele fez uso indevido do cargo em benefício eleitoral do presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a campanha presidencial deste ano. Em meio à crise, a PRF sofreu um apagão de larga escala que, há pelo menos quatro dias, tirou do sistema todos os serviços públicos de informações, como registro de acidentes, fiscalização de trânsito e confecção de boletins de ocorrência.

Comunicado que circulou entre grupos internos da PRF indica que um equipamento da corporação apresentou problemas “físicos” na noite do domingo, 20. O texto informava que a integridade dos dados estava garantida. Ainda de acordo com o documento, assinado pela Diretoria de Tecnologia da Informação e Comunicação da PRF, os dados estavam sendo transferidos para um novo equipamento.

Os cortes atingem outras áreas. No início da semana, a Folha de S. Paulo divulgou que a PRF enviou um ofício às superintendências regionais comunicando que, por falta de verba, vai limitar os serviços de manutenção de viaturas e que todo serviço considerado não essencial precisará de aprovação prévia. Entre os reparos considerados não essenciais estão manutenção elétrica e fornecimento de extintores de incêndio. Por outro lado, no dia 21, foi divulgado por O Estado de S. Paulo que a PRF planeja empenhar R$ 144 mil para custear viagens de Silvinei Vasques à Espanha e ao Chile para fazer um curso. Durante a gestão de Vasques, processos referentes à aprovação de viagens e respectivas despesas passaram a ser frequentemente tratados como restritos ou sigilosos.

PRF ocupou as manchetes com morte de Genivaldo

Alinhada a Bolsonaro, a PRF foi utilizada em operações que acabaram em repressão a moradores de favelas, muito além das rodovias. Com o agora réu Silvinei Vasques no comando, a PRF escreveu o pior capítulo de sua história, o assassinato, por asfixia, de Genivaldo de Jesus, no porta-malas de uma viatura, em uma improvisação de câmara de gás.

A serviço do bolsonarismo, Vasques teve forte atuação nas eleições. No dia de votação do segundo turno, ele promoveu operações, principalmente no Nordeste, para impedir ou dificultar o transporte de eleitores e eleitoras, em um flagrante uso ilegal da máquina pública a favor da campanha de Bolsonaro. Passadas as eleições, a PRF conviveu com bloqueio e ateamento de fogo em estradas promovidos por grupos golpistas, postura muito diferente de quando enfrentava atos de trabalhadores por suas reivindicações.

“Vasques só foi indicado ao cargo por ser bolsonarista de carteirinha”, afirma o colunista da Folha de S. Paulo Alvaro Costa e Silva. A ficha dele é pouco recomendável, ainda mais para ocupar o cargo mais alto da PRF. Ele já foi investigado por cobrar propina de uma empresa de guincho que atuava em Joinville (SC) e ameaçou matar um dos chantageados “com um tiro na testa”. Em 2000, foi processado por espancar um frentista; mesmo tendo sido condenado a indenizar a vítima, até hoje não pagou. A Corregedoria da PRF pediu a expulsão de Vasques, mas a investigação prescreveu. Ao longo da carreira, já respondeu a oito sindicâncias internas, mas os processos estão protegidos por sigilo de 100 anos, decretado pelo governo federal.

No Pará, agora golpistas atiram contra agentes da PRF

O apagão, que indica a falta de manutenção e o sucateamento da estrutura da PRF, ocorreu em meio a uma nova ofensiva de bolsonaristas, com bloqueios em várias estradas do país. Se, durante as eleições, a PRF foi utilizada por Bolsonaro para impedir eleitores de chegar aos locais de votação, agora os próprios agentes estão correndo risco ante ameaças dos golpistas.


No Pará, os bloqueios da BR-163 por um grupo de bolsonaristas incluiu ataques com tiros e pedras contra agentes da tropa de choque da PRF – até então vista como aliada – que tentavam liberar a via no dia 7. O MPF afirma que o movimento tem finalidade de golpe de Estado e é suspeito de dez crimes: homicídio qualificado tentado; constrangimento ilegal; dano; atentado contra a liberdade de trabalho; atentado contra a segurança de outro meio de transporte; associação criminosa; resistência; desobediência; desacato; e abolição violenta do Estado democrático de direito.

A Justiça Federal autorizou a PF a cumprir 10 mandados de prisão temporária e 11 de busca e apreensão na região. Os presos são, principalmente, empresários de Novo Progresso, que fica no sudoeste do Pará. Todos os carros usados pela polícia saíram danificados e pelo menos três foram perfurados por balas. Os golpistas também jogaram cadeiras e outros veículos contra os veículos. O ato se assemelha a terrorismo, conforme o MPF.

Fonte: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e UOL