SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

SAÚDE

Artigo: Precisamos falar sobre a Covid longa

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O Sintrajufe/RS publica artigo de Bruno Chapadeiro, professor do PPG em Psicologia da Saúde da Umesp. No texto, o autor trata de Covid longa, definição para alterações e sintomas surgidos ou agravados por infecção por Covid-19 que têm duração variada, podendo persistir por anos.

A Covid Longa ou Covid de Longa Duração, Covid de Longa Distância ou Covid de Longo Termo (Post-Acute Sequelae SARS-CoV-2 infection – PASC), ou ainda Síndrome Pós-Covid, foi recentemente definida como alterações e sintomatologias de caráter multissistêmico que surgem ou são agravadas após a infecção por Covid-19. Groff et. al. (2021) fizeram revisão sistemática de 57 artigos envolvendo mais de 2.500 sobreviventes de Covid-19, em que a maioria das sequelas incluiu distúrbios da saúde mental, pulmonares e neurológicos, que prevaleceram por mais de 6 meses após a exposição ao SARS-CoV-2. Também foram apontadas outras sequelas tais como fadiga, dispneia, dores, distúrbios de atenção e memória, queda de cabelo, sofrimento psíquico. Na pesquisa da Universidade de Oxford com amostra do UK Biobank de 500 pacientes infectados, com 95% de casos leves, foi observada perda de massa cinzenta cerebral em áreas associadas a olfato, memória e atenção.

Tais dados têm colocado a comunidade científica em alerta pois parece que as consequências das infecções por Covid-19 tendem a persistir por muitos anos, visto que sua duração pode variar de semanas, meses ou até anos. Lopez-Leon et al. (2021), Carfì, Bernabei e Landi (2020), Lund et al. (2021) e o CDC-Centers for Disease Control and prevention (2022) revelam que, embora pacientes que apresentaram forma grave da Covid-19 tenham maior risco de desenvolver a Covid Longa, aqueles que tiveram formas leves ou moderadas da doença também podem apresentar sintomas persistentes por até 4 ou mais semanas. Barreto e Aquino (2021) e Azevedo et. al. (2022) apontam que a Covid-19 não é uma “doença socialmente neutra”, tendo sido inclusive considerada uma sindemia (que caracteriza a interação mutuamente agravante entre problemas de saúde nas populações em seu contexto social e econômico). Atinge, sobretudo, grupos em desvantagem social acometidos por comorbidades, que apresentam multimorbidades, como hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardíacas e outras relacionadas às complicações e mortalidade por Covid-19.

Nesse sentido, vê-se por exemplo um importante recorte de gênero no que tange à questão. Pelà et. al. (2022) recrutaram 223 pacientes (34 homens e 89 mulheres) atendidos no centro hospitalar de Parma/Itália entre março/2020 e maio/2021, visando avaliar a frequência de sintomas reportados ao longo de 23 semanas. Embora os homens apresentassem maior risco de desenvolverem sintomas mais graves durante a fase aguda, estes persistiram por mais tempo nas mulheres, 97% delas e 84% deles. Nelas, os efeitos da Covid permaneceram iguais ou ainda piores do que durante o auge da infecção. Na comparação, os piores sintomas foram, respectivamente, em mulheres e homens: fadiga (75%-39%); falta de ar (79%-63%); problemas no sono (60%-37%); e dores no peito (43%-19%). Outras sequelas observadas: tosse, palpitações e dores musculares. Sobre os fatores de predisposição para o aparecimento da Covid Longa, o estudo apontou que falta de ar, dores no peito, palpitações, dores no corpo e problemas no sono estariam mais associados a continuar como sequelas, meses depois da doença.

Davis et. al. (2021) listam mais de 200 sintomas além dos já apontados. Para a maioria dos entrevistados (91%), o tempo de recuperação ultrapassou 35 semanas. Do total de participantes considerados recuperados, 23,3% não estavam trabalhando em razão das sequelas, incluindo aqueles em licença médica, licença por incapacidade, demitidos, os que desistiram ou não conseguiram encontrar emprego.

Em estudo da Coalizão COVID Brasil (2021) estimou-se que: 20% dos pacientes que precisaram de ventilação mecânica não puderam retornar ao trabalho, mesmo passados seis meses da alta hospitalar; somente 5% dos que não precisaram conseguiram retornar ao trabalho; e cerca de 25% dos pacientes que precisaram de intubação na UTI foram a óbito até seis meses após a alta hospitalar em decorrência das sequelas. A Rede Trabalhadores & Covid-19 – Brasil, pautada em documento da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (OSHA, informe n.10, jun. 2022) informa que, com apoio e reabilitação especializada, pode ser possível a volta ao trabalho de forma faseada ou parcial até atingir a capacidade funcional adequada ao exercício de algumas funções. Damiano et. al. (2022), em estudo com 425 pacientes que se recuperaram das formas moderada e grave da Covid-19, observaram alta prevalência de déficits cognitivos e transtornos psiquiátricos. Mais da metade (51,1%) dos participantes relatou ter percebido declínio da memória após a infecção; 13,6% desenvolveram Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT); 15,5% tiveram transtorno de ansiedade generalizada, tendo surgido, em 8,14% destes, após a doença; depressão em 8%, surgindo em 2,5 destes somente após a internação.

A prevalência (32,2%) de “transtorno mental comum” (sintomas depressivos, estados de ansiedade, irritabilidade, fadiga, insônia, dificuldade de memória e concentração) foi maior do que a relatada em estudos epidemiológicos na população geral brasileira (26,8%). Discrepância observada também na prevalência de transtorno de ansiedade generalizada (14,1%) e de depressão (8%), respectivamente maiores do que as médias (9,9% e 4 a 5%) entre os brasileiros.

O estudo também aponta que alguns dos sintomas, como cansaço e dores no corpo atingiram cerca de 40% dos recuperados. Vatasever, Wang & Sahakian (2021) e Hartley et. al. (2022) cunharam o termo não científico “cérebro pandêmico” para descrever que a exposição prolongada ao estresse crônico causado pela pandemia por si só, independente de infecção pelo vírus, pode provocar efeitos que vão desde a redução de memória e da concentração até atrofia de algumas partes do cérebro pela liberação intensa e contínua de cortisol. Ainda não há dados para confirmar se as vacinas ajudam a amenizar o problema ao conter a infecção aguda, pois as pessoas que completaram o esquema vacinal ainda não foram estudadas. Mesmo assim, haveria dificuldade em sabermos se após a 2ª, 3ª 4ª ou ainda, a 5ª dose, os resultados seriam diferentes.

Também ainda não se sabe se as variantes do vírus causam sintomas diferentes no longo prazo e quais os melhores tratamentos. O que sabemos é: apesar de como ainda querem muitos, de forma ideológica, tratar a Covid-19 como uma endemia e que, portanto, devemos aprender a “lidar com ela” uma vez que todos iremos pegá-la, pouco temos no horizonte do debate. “Pegá-la” pode significar, além de contribuirmos para o contágio e possíveis mutações e novas variantes, a perspectiva de termos de conviver com ela pelo resto da vida ou ainda por um bom tempo em nossos corpos.

Este texto foi publicado, originalmente, no site Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador.