SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

ALí‰M DAS PERIFERIAS

Hiperperiferias: o retrato do aumento da pobreza no Brasil

A BBC News publicou na última semana uma longa reportagem sobre um novo problema que vem sendo identificado por pesquisadores e pesquisadoras que estudam a situação da pobreza no Brasil. É o fenômeno das hiperperiferias , ou seja, periferias das periferias, onde os moradores são ainda mais pobres e encontram condições de vida ainda piores. O fenômeno vem se agravando no último perí­odo, com o aumento da pobreza no paí­s.

As hiperperiferias são conjuntos de moradias “ geralmente fruto de ocupações irregulares “ realizadas por pessoas que já não conseguiam sequer manter-se nas periferias das grandes cidades. Endividadas, sem conseguir emprego ou com trabalhos extremamente precários, sem apoio do governo, essas pessoas acabam tendo que vender por valores baixí­ssimos suas moradias nas periferias “ ou abandonar os locais onde viviam de aluguel “ e migrar para regiões ainda mais afastadas do centro das cidades, com condições ainda piores de saneamento ou de acesso í  saúde e í  educação para os filhos.

São assentamentos com barracos de madeira, esgoto a céu aberto, riscos de desmoronamento e outros problemas. Essas pessoas podem ocupar áreas com risco de deslizamento, mananciais e pontos de preservação ambiental. Mas, ao contrário da periferia ˜mais antiga™, sofrem mais com a precariedade e falta de serviços públicos, e têm uma população mais vulnerável e com renda mais baixa. Alguns pesquisadores chamam esses lugares de ˜hiperperiferia™ , explica a reportagem.

Para Kazuo Nakano, professor do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as hiperperiferias “são núcleos de ocupação recente, mais distantes e precárias, nas franjas da região metropolitana”. “Elas retomam esse padrão de casas de madeira, rua de terra e sem infraestrutura básica. É como se fosse a periferização da periferia”, diz o urbanista.

Conforme dados oficiais, o número de famí­lias em extrema pobreza na cidade de São Paulo cresceu 10% entre janeiro “ quando problema já era grave “ e julho de 2022. No Rio Grande do Sul, conforme dados são do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil , divulgado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Penssan), 14,1% dos domicí­lios registram insegurança alimentar grave, ou seja, fome. É o estado da região sul com os piores í­ndices. Nacionalmente, são 33,1 milhões de brasileiros e brasileiras passando fome. Mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com insegurança alimentar em algum grau, o que significa que 125,2 milhões de brasileiros estão nessa situação.

Bolsonaro faz pouco do problema e pode agravá-lo, apesar de ações eleitoreiras

O aumento da pobreza, da miséria e da fome tem sido minimizado por Jair Bolsonaro (PL) em reiteradas declarações, nas quais nega a realidade apontada pelos levantamentos e visí­vel nas ruas. Para Bolsonaro, não há tanta fome assim no Brasil e os pobres estão desempregados porque se acostumaram a não ter uma profissão.

Para o ano que vem, a proposta de Orçamento que Bolsonaro enviou ao Congresso corta recursos que seriam fundamentais no combate í  pobreza e que agora serão destinados a deputados e deputadas via orçamento secreto. Ações importantes tiveram cortes que variam de 95% a 97% na verba prevista para o próximo ano, como o Alimenta Brasil, programa que compra da produção agrí­cola de famí­lias e doa a comida para pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional.

Em 12 capitais brasileiras, incluindo Brasí­lia, a cesta básica custa mais do que o valor do Auxí­lio Brasil “ que chegou a R$ apesar da tentativa de Bolsonaro de aprovar valores menores. Isso significa que milhares de pessoas no paí­s não estão conseguindo comprar sequer o mí­nimo para ter as calorias necessárias e se alimentar três vezes por dia se dependerem apenas do benefí­cio para sobreviver.

A antecipação dos pagamentos do Auxí­lio neste mês trata-se apenas de uma medida eleitoreira, por meio da qual Bolsonaro busca fazer crer que se preocupa com a situação da população, exatamente o contrário do que mostram tanto suas declarações recentes quanto suas ações no governo. No Orçamento da União para 2023 enviado pelo governo ao Congresso, o valor previsto para o Auxí­lio Brasil no ano que vem é de apenas R$ 405.