SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

COTAS, LETRAMENTO RACIAL E MAIS

1º Encontro de Negros e Negras do Sintrajufe/RS debateu estratégias para a luta antirracista

Aconteceu no último sábado, 28, o 1º Encontro de Negros e Negras do Sintrajufe/RS. A atividade foi realizada durante todo o dia, na sede do sindicato, denunciou as diferentes formas de racismo e debateu estratégias para a luta antirracista em todos os espaços. Foram três mesas e seis painelistas, além das atividades culturais, com participação de cerca de 50 colegas da categoria.

O Encontro foi aberto com uma dinâmica proposta pela professora Ana Cristina dos Anjos, construindo, por meio da auto apresentação e da recordação das ancestralidades de cada um e cada uma presente, um sentido de encontro consigo mesmo , de reconhecimento de seu passado e seu presente. Depois, Ana Cristina recitou a poesia Novembro , da escritora Silvia Barros. Então, diretoras e diretores negras e negros do Sintrajufe/RS fizeram as primeiras falas oficiais do evento, ressaltando a importância das atividades que se desenvolveriam ao longo do dia, lembrando que a iniciativa era um fruto do que fora discutido no Congresso Estadual do Sintrajufe/RS e dando iní­cio aos debates do Encontrofalaram, neste momento, as diretoras Camila Telles e Roberta Vieira, o diretor Diogo Correa, a diretora de base Tatiana Souza, o diretor de base Mario Augusto Marques e a colega Lourdes Helena da Rosa, que também se revezaram na mediação das mesas.

Primeira mesa tratou da interseccionalidade na organização sindical

A primeira mesa do Encontro teve como tema Como pensar a interseccionalidade na organização sindical? , com a secretária de Combate ao Racismo da CUT/RS, ísis Garcia, como painelista. A sindicalista falou sobre o trabalho da secretaria que comanda na central sindical, destacando o projeto Pí­lulas Antirracismo (veja AQUI) que traz a publicação, nas redes sociais, de cards e ví­deos explicando porque determinadas ações ou expressões são consideradas racistas. Para ísis, a questão étnico racial tem que ser discutida de uma forma pedagógica, porque fomos construí­dos a partir do pensamento da branquitude . Em sua apresentação, ela mostrou alguns desses ví­deos, que, então, desencadearam debates sobre temas como as cotas e a necessidade de reparação histórica: O racismo não é um problema das pessoas pretas, é um problema da branquitude. Nos culpabilizam por sermos pretos e pretas. Viemos para cá sequestrados, tratados como peças, como animais, e isso vai gerar a forma como somos tratados , destacou.

ísis disse que há uma divisão racial do trabalho que precisa ser transformada pela ação dos trabalhadores e trabalhadoras negros e negras, mas também dos brancos: Quem quer uma sociedade antirracista tem que se indignar conosco. O silêncio é muito prejudicial para nós , defendeu. É por essa divisão social, no mercado de trabalho e em outros espaços, que instrumentos como as cotas se fazem necessários: O ideal seria que não precisasse de cotas, que todos fossem vistos da mesma maneira quando vão entrar no mercado de trabalho, mas sabemos que não é assim. Foi necessária e urgente a cota de gênero, como é necessária e urgente a cota racial . Os sindicatos, explicou, são um território e um instrumento importante dessas lutas, de forma que o movimento sindical precisa tratar desse tema: O movimento sindical precisa entender que cada um vem de um lugar diferente, mas todos queremos trabalho decente .

Nas perguntas e intervenções de colegas, diretores e diretoras após a fala de ísis, foram tratados temas como o pacto da branquitude , a luta pelo acesso de pessoas negras a todos os espaços, a necessidade de ser antirracistae não apenas não ser racista “, o problema do colorismo como fator de divisão e a urgência de um letramento racial para enfrentar o racismo cotidiano.


Na segunda mesa, resistência, amor e luta

Após a primeira mesa, foi servido um almoço especial para os e as presentes, uma feijoada preparada pelo chef Pedro Nascimento. Conhecido como Pedrão , ele está à frente de um projeto social chamado Cozinha Solidária do Pedrão, que serve quentinhas a dezenas de famí­lias da Vila Mapa.

A segunda mesa do dia, primeira da tarde, teve como tema O que nos inspira? Como as lutas negras fora do Poder Judiciário contribuem e dialogam com o movimento sindical? . Como painelistas, participaram a liderança quilombola Patrí­cia de Lourdes Peres da Rosa, a Mãe Paty; a presidente da União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro/RS) e trabalhadora do Sintrajufe/RS Elis Regina Duarte Gomes; e o militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e ativista do Instituto Perifa Sustentável, da periferia do Rio de Janeiro, Walmyr Júnior.

Elis Regina foi a primeira a falar, e recordou sua própria história para explicar de que lugar falava: Entendemos a falta de perspectiva do nosso povo nos lugares de onde viemos , afirmou, e criticou o Judiciário, no entorno do qual trabalha hoje: É um lugar distante de nós. É um lugar punitivo, um lugar que nos diz o tempo inteiro quem somos e de onde viemos . No entanto, seu objetivo foi trazer uma fala de amor para o Encontro: Precisamos entender até que ponto estamos preparados em amar os seres humanos. Um amor de direitos, de sonhar junto, de oportunidades , apontou, defendendo que é preciso aprender a dividir amor, pensamentos, sentimentos, e só assim será possí­vel dividir oportunidades: Nunca seremos individual, somos coletivo . Para Elis, o racismo no Brasil também passa pela questão da classe, de forma que as lutas antirracistas também devem ter esse corte: Queremos uma emancipação real do povo negro , defendeu.

A fala seguinte foi a de Mãe Paty, que começou sua explanação tratando da importância do Encontro e de, em um espaço central e privilegiado, trazer o povo periférico para hoje estar de frente para vocês . Ela relatou a situação dentro dos territórios e sublinhou que é preciso atuar coletivamente, da mesma forma que nossos antepassados lutaram, se alimentaram, tiveram força para que hoje estivéssemos aqui : A luta dentro dos nossos territórios é muito grande. E não é uma luta somente porque a gente é preto. É uma luta porque a cada dia que a gente acorda a gente agradece aos nossos orixás por estar vivo. A gente morre porque não tem saúde, não tem assistência, não tem o privilégio de estudar em uma boa escola . Para enfrentar essa realidade, ressaltou, Temos que cada um dar um pouquinho mais de si e levantar um outro preto, levantar alguém que está caindo .

Por fim, foi a vez de Walmyr Júnior falar aos e às presentes. Antes de sua palestra, Walmyr pediu que todos e todas tirassem seus sapatos e batessem os pés no chão. O objetivo era gerar conexão e perceber sensações como de força, energia, liberdade, ritmo e presença. O painelista falou de sua trajetória como morador do Complexo da Maré, narrou casos em que sofreu racismo e violência policial e denunciou: Enfrentamos no dia a dia a possibilidade de não existir . Falou sobre o controle pelo Estado, dos aparatos legais que mantêm esse controle e disse que a vida dos negros e negras são tratadas como descartáveis. Walmyr propôs que cada um e cada uma seja porta-voz da resistência e compartilhe ideias e sonhos, como os ancestrais fizeram em outras épocas: Podem matar nossos corpos, mas nunca vão matar nossas ideias, nossa ancestralidade, nunca vão matar aqueles que nos inspiram , disse, ressaltando que é caracterí­stica do povo negro o reconhecimento da ancestralidade como ferramenta de comunicação . A comunicação é, para ele, ferramenta central de luta. E, neste momento, ajuda a enfrentar o que chamou de racismo ambiental , que passa pelo desmatamento, pela falta de saneamento e por fatores que geram um ambiente de exclusão dos negros e negras. Para lutar contra isso, portanto, é necessário comunicar-se e conectar-se: temos que botar o pé no chão, temos que botar a mão na terra , concluiu, retomando a proposta com que iniciara sua fala.

Nas intervenções que se seguiram, colegas e dirigentes do Sintrajufe/RS voltaram a enaltecer a realização do Encontro e a defender a ocupação de todos os espaços pela população negra, inclusive no Judiciário, nos demais Poderes e nos partidos polí­ticos. E a luta antirracista, apontaram, está conectada a pautas que se referem a disputas sociais e pelo Estado, como a defesa da Justiça do Trabalho, por exemplo.


Na mesa final, retomadas históricas e apoio às cotas

A mesa final do Encontro teve como tema Polí­ticas públicas para a população negra , com o operador de Direito Gleidson Renato Martins Dias (Taata N’Daji dya Zambi) e a servidora pública e ativista dos direitos humanos Magali Dantas.

Magali apontou que o debate racial perpassa as diversas questões presentes na sociedade: Não tem como falar de água, energia, transporte, habitação, saúde sem abordar a questão das pessoas negras . Com isso em mente, ela fez um apanhado dos antecedentes históricos das relações étnico raciais no Brasil, com especial atenção para a memória do ordenamento jurí­dico brasileiro. Conforme a ativista, sempre existiram polí­ticas públicas para a população negra, mas de exclusão. Apenas no último perí­odo começaram a ser conquistadas polí­ticas no sentido contrário, como a lei para o ensino da história e da cultura afro-brasileira, africana e indí­gena, as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. Lutar por polí­ticas que fortaleçam a população negra e efetivem a necessária reparação histórica, defendeu Magali, também é missão do movimento sindical.

Gleidson, por sua vez, lembrou que o Brasil vem sendo construí­do em cima da exclusão da população negra. Para ele, neste momento, estamos no olho do furacão de uma revolução que tem o antirracismo como base, com negros e negras ocupando espaços onde nunca quiseram que a gente estivesse . A questão do lugar do negro , disse Gleidson, é um dos fundamentos dessa discussão: primeiro, a desumanização da escravização; depois, a sub-humanização: Quando estamos discutindo polí­tica para a população negra, temos que discutir o lugar da população negra no Brasil e o lugar do Estado. Não é à toa que o movimento negro é à esquerda, é contra o neoliberalismo , sublinhou, avaliando que disputar um lugar para a população negra e também disputar o conceito de República, o conceito de serviço público . Nesse contexto, a cota racial é um instrumento fundamental para enegrecer os espaços de poder.

Após as palestras, foi aberto espaço para intervenções dos e das presentes, momento no qual estiveram em pauta temas como a pouca presença de negros e negras no Judiciário e as dificuldades ainda enfrentadas na efetivação das polí­ticas de cotas.


Encaminhamentos e aprovação de propostas

Após a finalização das mesas, foram lidas e debatidas propostas de encaminhamento. Embora o Encontro não tenha caráter deliberativo, os textos afirmam o posicionamento dos e das participantes. Os dois textos propostos foram aprovados. Veja AQUI e AQUI.

De acordo com a diretora Camila Thomaz Telles, o Encontro de Negros e Negras foi uma mostra de que o espaço sindical é e deve ser um lugar de diálogo e de acolhimento de pautas que são caras à maior parte da classe trabalhadora brasileira, com o objetivo de aperfeiçoar a luta por democracia dentro da nossa categoria .


Momento cultural teve a inauguração de duas exposições

Ao final do Encontro, os e as participantes se dirigiram ao Salão Multicultural Alê Junqueira, também na sede do Sintrajufe/RS, onde foram apresentadas duas exposições artí­sticas. Uma delas, fotográfica, chamada Trajetórias negras , com fotos da socióloga, fotógrafa e colega aposentada Lourdes Helena da Rosa. A outra, com retratos em óleo sobre tela do artista visual Valdenar Gonçalves, com o tí­tulo Pretos a três por quatro . Enquanto os e as presentes observavam as fotos e pinturas, foi servido um coquetel preparado por Fabiana Sasi, do projeto Amor na panela , com um cardápio especialmente preparado para fazer referência à cultura afro-brasileira.

No mês de novembro, o Sintrajufe/RS irá divulgar ví­deos do evento nos meios de comunicação do sindicato.

Veja AQUI o álbum de fotos.